SÃO PAULO — A maternidade depois dos 40 anos aparece com mais frequência no Brasil, mas continua cercada por dúvidas sobre saúde, envelhecimento, autonomia e relações familiares. Dados do IBGE indicam que o número de nascidos vivos de mães com 40 anos ou mais cresceu 71,8% entre 2004 e 2024, de 59,9 mil para 102,8 mil.
A apresentadora Maju Coutinho, aos 48, voltou a discutir o tema ao anunciar a gravidez. No programa Saia Justa, do GNT, ela afirmou: “O mais difícil é separar o que é genuinamente uma vontade e o que é pressão de uma cultura que diz que eu tenho que ser mãe”.
Escolhas e receios
A montadora audiovisual e poeta Maria Rezende, 47, teve Luzia aos 44, de forma independente. Depois de dois casamentos e de congelar os óvulos, decidiu não seguir a ideia de que uma família precisaria começar pela formação de um casal. Para ela, o tempo deixou de ser uma medida de atraso: “Não posso estar atrasada por um tempo que não existe.”
A diferença de idade entre mãe e filha, porém, trouxe preocupações. Maria temeu morrer quando Luzia ainda fosse muito nova. Ao lembrar que também há pessoas que perdem pais jovens, concluiu que não existe garantia sobre quanto tempo uma família terá junta.
Ela passou a transformar esse temor em atenção à própria saúde, com mais exercícios, alimentação melhor e acompanhamento médico. Também enfrentou inquietações financeiras por trabalhar como freelancer e não ter licença-maternidade. Em contrapartida, considera que consolidou a vida profissional antes de ter filhos, o que lhe proporcionou liberdade e autonomia.
A psicóloga Paula Navarro pesquisa a parentalidade tardia. Em uma dissertação de mestrado defendida na PUC-Rio, em 2018, entrevistou seis adultos de 25 a 29 anos que nasceram quando pelo menos um dos pais tinha mais de 40. O estudo identificou valorização da experiência dos pais, mas também conflitos culturais entre gerações. Todos relataram alguma dificuldade ao sair da casa dos pais; saúde, solidão e finitude também apareceram entre as preocupações.
Experiências em momentos diferentes
Leila Barros Hoche, 51, teve filhos em três fases: Jhonatan, 32, aos 19; Geovanna, 18, aos 32; e Nicole, 11, aos 40. Ela compara as experiências dizendo que, na primeira maternidade, ainda estava descobrindo quem era, enquanto aos 40 viveu a relação com mais maturidade, tranquilidade e consciência.
A idade não eliminou as inseguranças. Leila se perguntou se ainda saberia cuidar de um bebê e temeu não acompanhar todas as etapas da filha. Com o tempo, preferiu concentrar-se no presente. Nicole, que gosta de assistir a filmes, passear e ir à academia com a mãe, não trata a diferença de idade como um problema.
A chegada da caçula também alterou a dinâmica entre os irmãos. Leila dizia que os mais velhos poderiam ajudar, mas não deveriam criar Nicole. Durante dificuldades financeiras, entretanto, Jhonatan assumiu tarefas além das esperadas de um irmão. Geovanna também participou da rotina enquanto a mãe trabalhava e hoje se define como irmã, amiga e referência adulta.
Para Navarro, essa transformação depende menos da diferença de idade do que da distribuição de responsabilidades. Quando a autoridade continua com os pais, o filho mais velho pode apoiar sem assumir obrigações excessivas nem ocupar uma posição quase parental.
Autonomia e envelhecimento
A percepção sobre a idade costuma vir de fora da família. Leila conta que já foi chamada de louca, mas decidiu não deixar a opinião alheia definir seus planos.
A advogada Raquel Saad, 32, cresceu ouvindo colegas dizerem que sua mãe, Amélia, 70, parecia sua avó. Dentro de casa, porém, a idade não era um assunto central. Raquel afirma que conviver com pessoas mais velhas tornou sua infância mais amadurecida.
Durante a pandemia, o envelhecimento dos pais ficou mais evidente para ela, porque ambos passaram a integrar o grupo de risco. Depois de se mudar de Goiânia para São Paulo, Raquel passou a visitá-los uma vez por mês e reforçou os cuidados com a mãe, incentivando-a a se exercitar sem tratá-la como dependente. Para ela, cuidar também significa preservar a autonomia.
Navarro identifica uma tensão semelhante no momento em que os filhos deixam a casa dos pais, especialmente quando há doença. Pais mais velhos podem tentar manter os filhos por medo da solidão, enquanto os filhos podem sentir culpa pela saída. A psicóloga defende que o cuidado seja negociado sem infantilizar os pais e com respeito à história deles. Quando pai ou mãe mantêm saúde e independência, o filho tende a se sentir mais seguro.
Para Leila, a passagem do tempo não pode ser interrompida, mas a qualidade da convivência pode ser escolhida. Seu objetivo é que Nicole guarde a lembrança de uma mãe presente, interessada em sua vida e disponível para brincar, conversar e abraçar.


