A retomada dos exercícios pode ser favorecida por registros mantidos dentro das células durante períodos de inatividade. Experimentos com camundongos e observações em pessoas indicam que músculos e fígado conservam marcas do treinamento anterior, capazes de influenciar o crescimento muscular e o uso de energia.
A pesquisa também sugere que essa memória celular pode permanecer quando os animais são submetidos a uma dieta rica em gordura. No fígado, o registro do exercício está associado à liberação de níveis mais altos de carboxilesterases, uma família de enzimas que decompõe lipídios presentes no sangue e os transforma em uma forma aproveitada pelos músculos.
O que acontece na retomada
Para investigar o fenômeno, os pesquisadores aplicaram em camundongos um protocolo com três etapas: treinamento, período sem exercício e uma nova fase de atividade. O treinamento inicial durou de quatro a oito semanas, seguido pelo destreinamento e pela retomada.
Os animais que já haviam treinado desenvolveram músculos maiores ao voltar à atividade do que aqueles sem histórico semelhante. As fibras musculares individuais também cresceram, indicando aumento das próprias células, e não apenas do tecido ao redor.
As células musculares treinadas novamente mostraram ainda mais eficiência para ajustar a produção de energia à demanda. Segundo os pesquisadores, essa capacidade de recorrer às reservas energéticas permanece mesmo quando os exercícios são interrompidos.
A observação ajuda a explicar por que pessoas que voltam a treinar podem recuperar a forma física mais rapidamente do que quem nunca passou por um treinamento semelhante. Ainda assim, os dados não indicam que os efeitos de exercícios anteriores substituam a atividade atual.
Registros em outros órgãos
O fígado participa desse processo porque fornece combustível aos músculos durante e depois das sessões. Tanto em camundongos quanto em pessoas que treinaram, interromperam a atividade e depois retornaram, o órgão liberou mais carboxilesterases. Essas enzimas atuam sobre as gorduras circulantes e facilitam sua absorção e queima pelos músculos.
Os pesquisadores também identificaram efeitos sobre a geração seguinte. Em camundongos, exercícios de resistência praticados pela mãe e pelo pai durante três a quatro semanas tiveram efeitos duradouros sobre os descendentes. Em comparação com filhotes de pais sedentários, os filhotes de pais que se exercitaram apresentaram proteção contra níveis inadequados de açúcar no sangue e ganho excessivo de peso durante o primeiro ano de vida.
Ainda não está esclarecido como essa influência é transmitida. Entre as hipóteses estão a possibilidade de a atividade materna ampliar o tempo de desenvolvimento no útero ou de os pais produzirem leite de melhor qualidade.
Uma hipótese em investigação
A biologia tradicionalmente associava a memória a neurônios e células do sistema imunológico. Estudos mais recentes, porém, apontam que outras células também podem guardar registros de experiências anteriores. Células-tronco da pele, por exemplo, preservam marcas de inflamações e podem cicatrizar feridas mais rapidamente meses depois.
Células de gordura humanas também mantêm um registro da obesidade após uma perda significativa de peso. Esse mecanismo pode estar relacionado ao ganho mais rápido de peso quando a pessoa volta a uma dieta rica em calorias.
Os pesquisadores propõem que todas as células do corpo possam registrar o exercício, mas ainda investigam por quanto tempo essas marcas permanecem e se seria possível ampliar essa capacidade. O objetivo é compreender como as células armazenam e recuperam essas informações, inclusive para aperfeiçoar as diretrizes de atividade física destinadas a quem não consegue se exercitar de maneira contínua.
A conclusão apresentada é que parte do esforço realizado pode não desaparecer completamente durante uma pausa. A atividade atual, no entanto, continua sendo necessária para manter os efeitos do treinamento.


