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Saúde

Pressão por masculinidade marca experiências de homens gays em apps

Relatos e análises apontam como a rejeição a traços femininos influencia perfis, preferências e a forma de se relacionar no Grindr.

Pressão por masculinidade marca experiências de homens gays em apps
Foto: Folhapress

No Grindr, homens gays que se reconhecem como afeminados relatam rejeição associada à voz, aos gestos e à aparência. Matheus Daipre, 28, de Mairiporã (SP), conta que costuma ser bloqueado depois que outros usuários ouvem um áudio enviado a pedido deles.

Antes de revelar à família que era gay, aos 19 anos, Matheus tentava controlar gestos e a maneira de dançar para parecer mais masculino. Mais tarde, passou a perceber a mesma pressão nas relações com outros homens. “Já tentei fingir uma masculinidade para ver se a pessoa se atrai um pouco mais por mim”, declara.

A influência desse padrão aparece também na pesquisa acadêmica. Em 2020, o linguista João Carvalho de Souza Junior examinou a própria experiência no Grindr em uma dissertação de mestrado apresentada à UFS (Universidade Federal de Sergipe). Mesmo insatisfeito, ele publicou uma foto sem camisa e cortou o rosto da imagem para montar um perfil que considerava mais atraente.

Para Souza Junior, os usuários chegam ao aplicativo sob influência de ideias sociais sobre o que seria desejável. Nesse ambiente, até quem pretende se afastar do modelo de homem másculo pode acabar reproduzindo parte dele para obter aceitação.

O psiquiatra Adilon Harley Machado, especialista em psicologia analítica e corporal, afirma que a formação desse padrão começa na infância. Segundo ele, meninos aprendem a ser masculinos por oposição ao que é associado ao feminino, em aspectos que vão dos brinquedos e da expressão da sensibilidade à forma de se portar e aos cuidados de higiene.

Machado diz que esse aprendizado também interfere na formação do desejo de homens gays. Quando um único modelo de corpo, aparência e pensamento é apresentado como referência, afirma, os desejos e afetos passam a ser organizados por uma perspectiva eurocêntrica.

Um homem de 61 anos ouvido sob anonimato afirma usar no Grindr as descrições “macho”, “discreto” e “não assumido”. Ele diz buscar homens masculinos, em boa forma física e fora do meio LGBTQIA+. Entre os traços que rejeita, menciona fala afetada, artigos no feminino, maquiagem, sobrancelhas feitas, corpo depilado e determinados gestos com as mãos. Para ele, trata-se de uma preferência, embora também critique o que chama de transformação de toda preferência sexual em discriminação, racismo ou intolerância.

Letícia Lanz, escritora e pesquisadora de gênero e sexualidade, relaciona a desvalorização de características femininas à posição atribuída às mulheres. Ela afirma que uma preferência por homens masculinos pode existir sem discriminação quando o sexo é visto como uma atividade lúdica, mas questiona se é assim que essas escolhas ocorrem na prática.

Machado avalia que os aplicativos tornam as rejeições mais explícitas, porque permitem registrar no perfil algo que talvez não fosse dito em uma conversa presencial. Para Noemi Alves do Carmo Machado, psicóloga que atende pessoas LGBTQIA+, tentar alterar características próprias para obter aceitação pode prejudicar a construção de uma identidade positiva.

Ela também afirma que experiências de rejeição podem produzir hipervigilância. Mesmo em uma relação saudável, a pessoa pode permanecer atenta a sinais de aprovação ou recusa. Matheus, por sua vez, diz que mudou sua prioridade e passou a valorizar o próprio bem-estar, sem depender dos olhares de homens mais másculos na balada.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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