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Saúde

Redes sociais ampliam autodiagnósticos de transtornos mentais

Pesquisadores alertam que vídeos sobre TDAH, autismo e ansiedade confundem experiências comuns com sintomas, embora o diagnóstico possa ajudar na busca por cuidado.

Redes sociais ampliam autodiagnósticos de transtornos mentais
Foto: Catarina Pignato/Folhapress

Vídeos que associam comportamentos cotidianos a transtornos mentais têm estimulado autodiagnósticos nas redes sociais. Conteúdos sobre TDAH, autismo e transtorno de personalidade borderline apresentam listas de sinais e características, muitas vezes produzidas por pessoas sem formação médica.

O fenômeno é relacionado por pesquisadores à patologização da vida, processo em que experiências, emoções e sofrimentos comuns passam a ser interpretados como sintomas de transtornos mentais. Para o psiquiatra Rossano Cabral Lima, professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, reconhecer o sofrimento é necessário, mas o diagnóstico não deve se transformar na explicação principal para qualquer mal-estar ou traço de personalidade.

“Mas a gente tem que ter uma mente aberta e crítica para essa tentativa de responder a esse mal-estar exclusivamente ou principalmente a partir dos diagnósticos psiquiátricos”, afirma Lima.

Segundo o médico, a classificação pode reunir sob o mesmo rótulo pessoas com histórias diferentes e deixar o contexto do sofrimento em segundo plano. Ele critica o que chama de psiquiatria de checklist, na qual a soma de uma quantidade mínima de sintomas parece suficiente para chegar a uma conclusão. Com isso, pacientes podem procurar o consultório já convencidos de um diagnóstico e buscar apenas a confirmação profissional.

O alcance dos vídeos

Um artigo publicado em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders avaliou 150 vídeos do TikTok sobre autismo na vida adulta. Entre os 116 conteúdos que apresentavam traços ou sintomas, 76 relacionavam ao autismo experiências comuns, como o cansaço depois de interações sociais.

A análise registrou mais de 1,1 bilhão de visualizações no conjunto dos vídeos. Cada publicação teve, em média, 7,18 milhões de visualizações, e a taxa de engajamento foi de 20,6%. Do total, 95% dos vídeos foram feitos por usuários que se identificavam como autistas ou eram considerados autistas. Apenas um conteúdo tinha sido produzido por um profissional de saúde.

A psicóloga Flávia Albuquerque, autora de “Despatologiza”, afirma que esse tipo de material combina autoconhecimento, identificação imediata e sensação de pertencimento. A resposta apresentada em poucos minutos para a pergunta sobre o motivo de uma pessoa ser de determinada maneira pode ser especialmente atraente quando os exemplos envolvem procrastinação, esquecimento de compromissos, distração ou incômodo com barulhos e texturas.

“Quando um vídeo diz ‘você se distrai com facilidade e vive cansado, isso pode ser TDAH’, ele está descrevendo, na prática, a experiência de quase todos nós sob as condições de vida contemporâneas”, diz Albuquerque.

O psicólogo Horácio Goes Amici estudou o tema em sua dissertação de mestrado na USP. Em uma pesquisa publicada em 2023, examinou 31 vídeos em português sobre ansiedade, depressão e TDAH que tinham mais de 700 mil curtidas no TikTok. Foram selecionados os nove vídeos mais visualizados, três de cada transtorno, e analisados os dez primeiros comentários de cada publicação, totalizando 90 comentários.

O estudo apontou predominância de criadores sem formação na área da saúde, falta de referências bibliográficas e apresentação dos transtornos por meio de listas de comportamentos cotidianos e genéricos. Nos comentários, apareceram autodiagnósticos e o uso dos diagnósticos para explicar dificuldades e reduzir a culpa associada às cobranças por desempenho.

Diagnóstico exige avaliação profissional

Albuquerque ressalta que a busca por um diagnóstico também pode ter uma dimensão legítima. O rótulo pode ajudar uma pessoa a pedir apoio, solicitar adaptações, reconhecer limites e encontrar outras com experiências semelhantes. Para quem passou anos sendo chamado de preguiçoso, desorganizado ou incapaz, a identificação de uma condição pode reorganizar a compreensão sobre dificuldades anteriores.

A psicóloga afirma que, em uma sociedade que frequentemente exige uma justificativa formal para reconhecer o sofrimento, o diagnóstico pode ser entendido como uma forma de legitimação. Ela define como “absolvição patologizante” a mudança em que algo antes percebido como culpa passa a ser explicado pelo funcionamento do cérebro.

Na psiquiatria, não existem exames de sangue, de imagem ou genéticos capazes de confirmar transtornos como TDAH, TEA ou ansiedade. A avaliação, porém, não se limita à contagem de sintomas. O psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP, explica que é necessário fazer o diagnóstico diferencial e verificar se os sinais estão ligados a outra doença ou a uma experiência dentro da normalidade. Também são considerados a intensidade, a duração e o impacto dos sintomas.

Lima alerta que avaliações apressadas podem contribuir para o excesso de prescrição de psicofármacos. Silva chama atenção ainda para a automedicação de pessoas que respondem a questionários, concluem que têm um transtorno e começam a usar medicamentos sem avaliação médica adequada.

A crítica à patologização não significa negar a existência de transtornos mentais nem a necessidade de tratamento. Quadros graves podem causar sofrimento intenso e exigir acompanhamento médico. O desafio é diferenciar doença e experiência normal, evitando tanto a banalização dos diagnósticos quanto a negligência de quem precisa de cuidado.

Para Albuquerque, a afirmação “é isso que eu tenho” pode ser transformada em uma pergunta. Em vez de concluir sozinho que tem determinado transtorno, o indivíduo pode relatar o sofrimento, buscar compreender o que ocorre e procurar uma escuta profissional.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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