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Saúde

Vacinação na gestação transfere anticorpos e protege mãe e bebê

Anticorpos maternos atravessam a placenta, enquanto vacinas contra coqueluche e VSR ampliam a proteção do recém-nascido.

Vacinação na gestação transfere anticorpos e protege mãe e bebê
Foto: GETTY IMAGES via BBC

Os anticorpos produzidos pela mãe podem atravessar a placenta e chegar ao bebê ainda durante a gestação. Essa transferência oferece proteção nos primeiros meses de vida, período em que a criança ainda está desenvolvendo a própria resposta imunológica.

A imunoglobulina-G (IgG) é o principal anticorpo envolvido nesse processo. Menor que a imunoglobulina-M (IgM), ela consegue atravessar a placenta porque é reconhecida por um receptor chamado FcRn, localizado nas células que revestem esse órgão. A IgM, apesar de aparecer rapidamente diante de uma ameaça, é grande demais para passar ao feto.

A transferência aumenta conforme a gravidez avança e se intensifica na segunda metade da gestação. Pouco antes do parto, o bebê pode carregar mais anticorpos do que a própria mãe. Por isso, cada vacina recomendada durante a gravidez tem uma janela específica: é preciso permitir que o organismo materno produza a defesa e que haja tempo para transferi-la.

Vacinas recomendadas durante a gravidez

A dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, é indicada no Brasil a partir da 20ª semana de gestação. Em 2024, 29 bebês com menos de 1 ano morreram de coqueluche no país; 24 eram filhos de mães que não haviam sido vacinadas, segundo Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

A incidência da coqueluche naquele ano alcançou o maior nível da série histórica desde 1990. A doença tem comportamento cíclico, e a queda da cobertura vacinal durante a pandemia deixou parte da população mais suscetível. A ampliação dos testes de PCR também contribuiu para identificar casos antes não detectados.

O Sistema Único de Saúde incorporou em dezembro de 2025 a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), principal causa da bronquiolite grave. O imunizante é oferecido a partir da 28ª semana de gestação. Em 2024, 537 crianças com menos de 1 ano morreram no Brasil por bronquiolite grave.

A cobertura da vacina contra o VSR já se aproxima de 85%, de acordo com Kfouri. A adesão à vacina contra a covid-19, porém, permanece mais baixa entre as gestantes.

Além da placenta, o bebê recebe outra forma de proteção após o nascimento. A imunoglobulina-A (IgA) chega pelo leite materno e atua nas portas de entrada do organismo, como boca, intestino e vias respiratórias.

Proteção também para a gestante

A vacinação não beneficia apenas o bebê. As mudanças cardiovasculares, respiratórias e imunológicas da gravidez podem tornar algumas infecções mais graves para a mulher. Segundo diretriz de 2025 da SBIm, o risco de hospitalização por influenza é quatro vezes maior durante a gestação e aumenta conforme a gravidez avança.

A covid-19 também elevou os riscos maternos. Um estudo do Observatório Covid-19 Fiocruz apontou que, entre os casos fatais analisados, gestantes tiveram chance 337% maior de hospitalização. As chances de internação em UTI e de uso de suporte ventilatório invasivo foram, respectivamente, 73% e 64% maiores.

A mesma pesquisa identificou aumento de 40% nos óbitos maternos no Brasil em 2020 em comparação com os anos anteriores. Entre gestantes com covid-19 confirmada na Inglaterra, outro estudo encontrou taxa de natimortos de 8,5 a cada mil nascimentos, ante 3,4 a cada mil entre mulheres sem a doença.

Nenhuma das quatro vacinas recomendadas na gestação — dTpa, gripe, VSR e covid-19 — utiliza microrganismo vivo capaz de causar a doença. Os imunizantes usam partes do agente infeccioso, versões inativadas ou proteínas produzidas em laboratório.

A principal barreira à adesão, segundo os especialistas citados, é a desinformação. Entre janeiro de 2024 e março de 2025, foram identificados pelo menos 33 conteúdos enganosos sobre vacinas circulando no Brasil. A vacina contra a covid-19 tem a menor adesão entre as gestantes e está pelo menos 27 pontos percentuais abaixo das coberturas da dTpa e do VSR.

A transferência de anticorpos pode ser menor em gestantes com algumas doenças autoimunes, como lúpus, quando os receptores da placenta ficam saturados. Bebês prematuros também recebem menos anticorpos maternos por terem tido menos tempo de transferência placentária.

Ainda há dúvidas sobre a duração dessa proteção, o melhor momento para cada vacina, a aplicação conjunta de imunizantes e o chamado blunting, fenômeno em que níveis elevados de anticorpos maternos podem reduzir parcialmente a resposta do bebê a algumas vacinas posteriores.

“A placenta é como se fosse um filtro, com um microfuro em que as partículas menores têm mais facilidade de passar do que as maiores”, explica a ginecologista e obstetra Karina Belickas, do Hospital e Maternidade Santa Joana. Para Maria Carolina Pessoa Valença Rygaard, da Febrasgo, a vacinação durante a gravidez tem dois objetivos: proteger a mulher e reduzir os riscos para o bebê.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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