NOVA YORK — O receio de abordagens do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) foi considerado pelas autoridades brasileiras na transferência da votação presidencial de Manhattan para o Queens. O novo endereço permite organizar as filas dentro de um complexo educacional, sem concentrar milhares de eleitores nas calçadas.
A escolha ocorre em meio ao endurecimento das operações de controle migratório nos Estados Unidos. A Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a polícia da cidade participaram do mapeamento de alternativas consideradas mais seguras. O complexo também foi usado pelo Consulado-Geral do Peru na eleição presidencial realizada em abril.
Deslocamento maior para parte dos eleitores
Nas eleições de 2022, a votação ocorreu em Manhattan. Neste ano, será realizada em uma instituição de ensino no Queens, a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado-Geral do Brasil e sem acesso direto ao metrô.
A jurisdição consular de Nova York inclui brasileiros de Nova Jersey e da região da Filadélfia. Amanda Lourenço, que trabalha com marketing e mora na Pensilvânia, afirma que já precisava dirigir cerca de uma hora e meia para votar na cidade. Em 2022, participou do primeiro turno, mas não retornou para o segundo por causa da distância. Com a mudança, o trajeto ficará pelo menos meia hora mais longo.
“Eu preferia quando era em Manhattan, que era mais central, a gente não tinha que atravessar para o outro lado”, disse Amanda. Ela afirmou que considera votar porque considera importante participar, embora tenha se desanimado com o novo percurso.
A decisão motivou uma mobilização de brasileiros que pedem ao Consulado a retomada da votação em Manhattan. Em 2022, eleitores chegaram a esperar cerca de meia hora para percorrer aproximadamente 500 metros. Também houve tensão entre apoiadores de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, e a polícia de Nova York instalou barreiras para separar os grupos.
Estrutura ampliada no exterior
Os Estados Unidos concentram o maior colégio eleitoral brasileiro fora do Brasil. O país tem cerca de 265 mil eleitores registrados, contra quase 183 mil em 2022, crescimento de aproximadamente 45%. Em Nova York, cerca de 28 mil brasileiros estavam aptos a votar em 2022.
O eleitorado brasileiro no exterior mais do que quadruplicou desde 2010, quando estava na casa dos 200 mil. Para atender à demanda, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou, em abril, a transferência de R$ 13,2 milhões para a locação de imóveis no exterior. O Itamaraty trabalha neste ano com 66 endereços adicionais para as eleições, 14 deles nos Estados Unidos.
A comunidade brasileira no país é estimada pelo Itamaraty em cerca de 2 milhões de pessoas, número superior ao de eleitores registrados. A participação, porém, segue como desafio: em 2022, a abstenção de brasileiros que votavam fora do país foi de 63,36% no primeiro turno e de 61,44% no segundo.
O voto é obrigatório para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos, mas eleitores ausentes podem justificar a falta. No pleito de 2022, Jair Bolsonaro recebeu cerca de 65% dos votos válidos nos Estados Unidos. Miami teve o maior percentual, com 81,2%. Luiz Inácio Lula da Silva venceu em três dos dez postos consulares, com o melhor resultado em São Francisco, onde alcançou 60,1%.
Em 2026, as autoridades brasileiras precisarão acomodar um eleitorado maior e estimular a presença nas urnas em um cenário migratório diferente daquele de quatro anos atrás.


