A morte do pai, Boruch, em 2020, aos 103 anos, levou Mauricio Stycer a retomar um projeto que havia adiado por décadas: transformar em livro as histórias de três parentes judeus que atravessaram guerras, regimes autoritários e o antissemitismo da primeira metade do século 20. O resultado é “Rotas de Fuga”, publicado pela editora Seja Breve.
Stycer conta que tinha certo pudor de abordar o passado do pai, que evitava falar sobre a própria trajetória. Depois da morte de Boruch, o jornalista se sentiu mais à vontade para interpretar seus silêncios e investigar os acontecimentos narrados na família.
Um avô perseguido pela guerra
O primeiro personagem é Jacob, avô materno de Stycer, nascido no Império Russo. Recrutado para o exército do czar durante a Primeira Guerra Mundial, ele foi ferido nos Cárpatos e fugiu para casa. Considerado desertor, passou um ano entre hospitais e prisões militares na Ucrânia, enquanto tentava escapar da Justiça.
A base desse relato é um caderno vermelho escrito em iídiche. A tradução encomendada pela mãe de Stycer décadas antes ficou quase ilegível, e o jornalista precisou lidar com um manuscrito que pode conter liberdades do autor. “O que escrevi foi o que era possível, o que minhas fontes permitiam”, afirma.
O tio ligado ao Bund
Abraham, tio paterno, foi um quadro importante do Bund, movimento operário e socialista judeu. Preso pelos soviéticos, enfrentou prisões e interrogatórios antes de escapar para os Estados Unidos. Em Nova York, Stycer o visitou uma vez, já adulto. Abraham lhe entregou um livro com um capítulo sobre seu encontro, na prisão, com um dos líderes do Bund.
Esse volume e os artigos escritos pelo tio serviram de base para a reconstrução de sua história. Stycer considera que recebeu uma missão ao ganhar aquele livro.
A fuga de Boruch pela Ásia
Nascido na Polônia, Boruch fugiu do nazismo por uma década. Passou por Vilnius, Kaunas, Moscou e Vladivostok, antes de seguir para Kobe, no Japão, e Xangai, na China. Ao pesquisar livros, arquivos e listas de vistos concedidos pelo Japão, Stycer confirmou que a narrativa familiar sobre o resgate de judeus europeus por um cônsul honorário holandês e um vice-cônsul japonês correspondia a acontecimentos reais.
O capítulo também utiliza uma entrevista gravada pelo irmão Daniel na década de 1990. Quando os relatos do pai divergem dos fatos pesquisados, o jornalista acrescenta suas próprias observações.
As três trajetórias se cruzam na história familiar. Depois da China, Boruch passou um período nos Estados Unidos com Abraham, investiu no comércio de pedras preciosas e foi ao Rio de Janeiro buscar clientes. Hospedado no apartamento de Sonia, filha de Jacob, casou-se com ela em 1960.
Para Stycer, escrever exigiu deixar de lado a posição profissional de observador. “Tive de assumir que queria falar sobre mim e sobre os meus parentes”, diz.


