BRASÍLIA — Mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o advogado Ciro Soares indicam que o ex-banqueiro apoiou a permanência de Otto Lobo na presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nas conversas, Vorcaro afirmou que acionaria “sua turma” para ajudar a manter Lobo no cargo.
As mensagens foram trocadas em 19 de julho do ano passado, um dia depois de João Pedro Nascimento deixar a presidência da CVM por motivos pessoais. Lobo, então diretor do órgão, assumiu a chefia de forma interina.
Soares disse a Vorcaro que havia sido procurado por Lobo para buscar apoio do senador Otto Alencar (PSD-BA), integrante da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, responsável pela sabatina dos indicados à CVM. O advogado também relatou que pretendia levar Lobo ao então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
Em uma das mensagens, Soares afirmou que trabalharia para que Lobo permanecesse no comando da autarquia. Vorcaro respondeu: “Vamos fazer acontecer”. Em outro trecho, o ex-banqueiro disse que falaria com “sua turma”, sem especificar quem seriam essas pessoas.
Negativas sobre articulação
A assessoria de Otto Alencar afirmou que o senador nunca esteve com Otto Lobo e que não participou de articulações para mantê-lo na presidência da CVM. Também negou a realização de reuniões ou qualquer iniciativa semelhante.
A equipe de Ciro Soares disse que o advogado não marcou encontros entre Lobo e senadores ou outras pessoas. Também afirmou que Soares não atua na CVM.
A defesa de Jaques Wagner negou que tenha ocorrido encontro para discutir o comando da comissão. Segundo a defesa, o senador não pode responder por conversas de terceiros das quais não participou e cujo contexto desconhece. Wagner também afirmou não ter relação com Vorcaro nem ter atuado em favor dos interesses do Banco Master.
O senador é suspeito de ter recebido pagamentos do banco por meio da empresa de sua nora e de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. A defesa nega a relação com o caso.
Aprovação pelo Senado
Otto Lobo foi sabatinado e aprovado pelo Senado em 20 de maio de 2026, após indicação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A votação terminou com 31 votos favoráveis e 13 contrários. Na CAE, Lobo recebeu 19 votos a favor e quatro contra, entre os 23 senadores que participaram da votação.
Em nota, Lobo afirmou não ter conhecimento nem ingerência sobre conversas privadas de terceiros. Também negou ter mantido relações com Vorcaro ou ter buscado apoio dele. A assessoria disse que Lobo foi aprovado depois de a CVM responder a denúncias de fraude com a criação do Grupo de Trabalho do Banco Master, Reag e Entidades Conexas (GT).
Ligada ao Ministério da Fazenda, a CVM supervisiona o mercado de capitais, incluindo negociações de ações, fundos de investimentos e debêntures. O caso Banco Master ampliou as discussões sobre a fiscalização da autarquia, que encerrou o último ano com queda no número de julgamentos.
Em audiência na CAE, o então presidente interino João Accioly afirmou que a CVM tinha conhecimento de possíveis irregularidades no banco antes de 2022 e que as apurações poderiam ter avançado mais rapidamente sem o acúmulo de processos por pessoas.


