A Polícia Federal identificou pagamentos feitos antes da conclusão de análises técnicas, compras fracionadas e falhas de controle na relação entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. As conclusões constam de investigações cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A perícia examinou 84 compras de carteiras de crédito destinadas a pessoas físicas, que somaram R$ 17,58 bilhões. Em 22 operações, no valor total de R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma avaliação obrigatória foi concluída somente depois do pagamento. Essas transações representaram 43,41% do total desembolsado nas compras analisadas.
As avaliações deveriam verificar a existência e a qualidade dos créditos, o risco de inadimplência, a adequação dos preços, o impacto sobre o caixa do BRB, a necessidade de garantias, a regularidade dos contratos e o registro contábil e tributário das operações. Para os peritos, a conclusão posterior reduzia a capacidade de impedir a compra, renegociar valores ou exigir garantias antes da liberação dos recursos.
Alertas sobre o Banco Master
O BRB recebeu sinais de atenção antes de ampliar as aquisições. Em outubro de 2023, a Fitch Ratings elevou a nota do Banco Master, mas registrou a volatilidade dos resultados, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos de baixa liquidez.
As compras ganharam escala em 17 de julho de 2024, quando a diretoria do BRB autorizou até R$ 750 milhões para a aquisição de créditos. Pareceres produzidos em setembro e dezembro de 2024 apontaram que os ativos do Master haviam crescido 83,5% em 12 meses, para R$ 50,9 bilhões. A carteira de crédito chegou a R$ 21 bilhões, com alta de 81,6%, enquanto a reserva para possíveis perdas aumentou 82,9%.
Os técnicos classificaram como “muito baixo” o Índice de Basileia do Master e observaram que o caixa correspondia a menos de 10% dos depósitos. Relatório da RISKBank/Eleven, de novembro de 2024, indicou que o volume de crédito equivalia a 7,4 vezes o patrimônio líquido do banco.
Segundo a PF, as informações circulavam dentro do BRB, mas não foram encontrados documentos que comprovassem uma avaliação ampla, independente e organizada dos riscos de concentrar negócios no Master.
Operações fracionadas e novos pagamentos
A diretoria do BRB podia aprovar sozinha operações de até R$ 750 milhões. Acima desse valor, a decisão deveria passar pelo Conselho de Administração. O laudo identificou 25 operações que, juntas, somaram R$ 17,5 bilhões. Em 21 delas, o valor foi fixado exatamente em R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, quatro compras de R$ 750 milhões foram autorizadas, totalizando R$ 3 bilhões. Algumas decisões ocorreram com dois dias de intervalo. Para os peritos, a repetição dos valores, o curto espaço entre os negócios e a participação do mesmo vendedor indicam uma estratégia única, que, considerada em conjunto, deveria ter sido submetida ao conselho.
Também houve pagamentos anteriores às autorizações e aos pareceres técnicos. Em novembro de 2024, o BRB pagou R$ 209,32 milhões um dia antes da autorização da diretoria. Em janeiro de 2025, desembolsou R$ 473,49 milhões; as áreas de Contabilidade e Risco concluíram suas análises 11 e 14 dias depois, respectivamente.
Problemas nas carteiras
O BRB criou, em fevereiro de 2025, um grupo de trabalho para verificar os créditos adquiridos. Relatório concluído em abril apontou dados fictícios, controles manuais em planilhas, falta de documentos dos empréstimos, ausência de comprovação de descontos em folha e contratos sem assinatura dos clientes na amostra analisada. As divergências financeiras chegaram a R$ 1,39 bilhão em valores brutos.
Mesmo após o relatório, a diretoria autorizou mais R$ 2 bilhões em compras durante abril. Em inspeção realizada no mesmo mês, técnicos encontraram R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas por clientes, mas ainda não repassadas ao BRB. O Banco Master transferiu R$ 14,37 milhões durante a visita, após reconhecer parte da diferença.
O documento final, concluído em 19 de maio, apontou R$ 265,9 milhões em repasses devidos pelo Master e mais de 1 milhão de parcelas vencidas e em aberto, no valor de R$ 316,5 milhões. Também foram relatadas dificuldades para comprovar a origem dos créditos e o caminho percorrido por eles até o BRB.
Ainda assim, segundo a PF, o banco público pagou mais R$ 5,23 bilhões ao Master depois dos alertas internos. Após o primeiro alerta formal sobre a redução da disponibilidade de recursos no curto prazo, foram desembolsados outros R$ 7,42 bilhões.
Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo BRB estavam concentradas no Master. Dos R$ 21,91 bilhões mantidos nessas operações, R$ 19,78 bilhões estavam ligados à instituição.
Em 22 de agosto de 2025, duas operações que somavam R$ 45,9 milhões avançaram sem a assinatura do termo da transação e antes da conclusão da análise de Risco. O parecer foi concluído seis dias depois.
Conclusão da perícia
A análise da PF abrangeu R$ 47,78 bilhões em operações entre as instituições. Desse total, R$ 31,74 bilhões correspondiam a negócios nos quais o Master vendia carteiras de crédito ao BRB.
Os peritos apontaram a repetição de pagamentos antecipados, pareceres posteriores aos desembolsos, fracionamento de compras, ausência de avaliação independente dos riscos, concentração das operações e continuidade dos negócios após alertas financeiros e problemas documentais.
Para a PF, o conjunto dos episódios apresenta elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar “gestão fraudulenta” no processo de compra das carteiras. O laudo afirma que a repetição das práticas é compatível com esse padrão, e não apenas com gestão temerária.


