A Polícia Federal afirma que operações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master foram concluídas com aceleração deliberada, contratos substituídos no mesmo dia e assinaturas feitas perto do encerramento do sistema bancário. Para os investigadores, o procedimento permitiu a transferência de cerca de R$ 17 bilhões na compra de carteiras de crédito, dos quais aproximadamente R$ 12,2 bilhões eram títulos falsos e sem valor.
Documentos tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) indicam que as operações continuaram mesmo depois de o BRB assinar um termo de ajustamento de conduta com o Banco Central, em fevereiro de 2025. Após o acordo, o banco comprou mais R$ 4 bilhões em créditos.
Contratos assinados em poucos minutos
A PF relata que, em uma das operações, o Banco Master encaminhou contratos ao BRB, recebeu as assinaturas da equipe do banco público e cancelou os documentos no mesmo dia. Em seguida, enviou versões alteradas.
Próximo das 17h30, horário de fechamento do sistema bancário, funcionários do BRB assinaram três contratos sucessivos em poucos minutos, sem análise técnica, conforme os investigadores. A corporação afirma que o pagamento foi pressionado para ser concluído no mesmo dia, apesar da falta de documentação consistente.
As conversas extraídas dos celulares de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, e Dário Oswaldo Garcia Junior, diretor de finanças, registram dúvidas sobre as carteiras negociadas. Em 26 de novembro de 2024, Costa escreveu: “Não entendo quando dizem que não há carteira e aparece uma nova”. Garcia respondeu: “Nem eu”.
Três dias depois, Garcia informou que o Master apresentaria para assinatura imediata um contrato de cessão de R$ 400 milhões, com liquidação prevista para a sexta-feira seguinte. A PF relaciona esse episódio ao padrão de tramitação acelerada identificado na investigação.
Uma carteira Credcesta chegou ao BRB com valor contábil de R$ 179,6 milhões. Desse total, apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos para compra. Segundo os investigadores, documentos recebidos do banco já apontavam manipulação, ausência de lastro adequado e movimentações atípicas entre fundos de investimento.
Créditos e controles internos
A fraude investigada envolvia Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) falsas, derivadas de empréstimos consignados inexistentes gerados pela Tirreno. A empresa de fachada foi criada em dezembro de 2024 e era controlada pela Cartos (Sociedade de Crédito Direto).
Em petição encaminhada ao ministro André Mendonça, do STF, a PF afirmou que o exame feito pelo Banco Central encontrou inconsistências nos títulos emitidos pelo Master a partir dos consignados da Cartos.
A investigação também aponta que os limites de inadimplência das carteiras foram ampliados de 4% para 5%. Em outras operações, contratos teriam sido divididos em tranches para permitir liberações sem o circuito usual de aprovação.
Auditorias do Banco Central identificaram falhas na avaliação dos créditos comprados do Credcesta, no envio de documentos, dados e informações ao órgão e na necessidade de contratar uma auditoria independente. Mesmo após o termo firmado em fevereiro de 2025, o BRB continuou adquirindo os ativos.
Em maio de 2025, segundo os documentos, o banco regional manteve “com apetite elevado” as compras de carteiras do Master. Naquele momento, o banco já havia vendido R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios, conforme a PF.
Anotações manuscritas de uma reunião da diretoria do BRB, realizada em 11 de julho de 2025, registrariam a orientação para efetivar compras mesmo diante de pareceres jurídicos contrários emitidos desde abril de 2025. A corporação afirma que a diretoria tinha conhecimento e responsabilidade sobre as aquisições.
O BRB informou que removeu integralmente a diretoria executiva que comandava a instituição durante os negócios com o Master. A atual gestão declarou que os ex-dirigentes não devem ser confundidos com o banco e que adotará medidas para proteger o patrimônio, buscar o ressarcimento de eventuais prejuízos e aperfeiçoar a governança e os controles.
Participação atribuída ao Master
A PF atribui a Augusto Lima a elaboração de carteiras fraudulentas transferidas pelo Master ao BRB. Mensagens analisadas pelos investigadores indicariam sua participação nas negociações. A partir de janeiro de 2025, as carteiras teriam passado a ser preparadas pelo próprio Lima.
As conversas examinadas incluem trocas entre Lima e Henrique Peretto, controlador e dono da Tirreno, além de mensagens entre Lima e Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, Vorcaro recorria ao diretor para obter recursos no BRB, cobrava contratos e CCBs e pressionava por prazos de envio e assinatura.
Em maio de 2025, mensagens mostrariam a organização do envio de contratos da Tirreno e das assinaturas das CCBs para cumprir a janela de liquidação do dia. Para dar suporte documental às operações, o Master teria usado extratos e documentos destinados a comprovar a existência de créditos já vendidos ao BRB.
Em um grupo chamado “INFO-BRB”, criado em maio, o saldo de um extrato da Tirreno teria sido alterado de R$ 6,4 milhões para R$ 7,2 milhões e depois para outro valor sem correspondência com os anteriores. O grupo reunia Vorcaro, o tesoureiro Alberto Félix e o diretor Ângelo Ribeiro.
A PF afirma que funcionários do Master sabiam que os créditos eram inexistentes e reconheciam a dificuldade de registrá-los junto aos órgãos pagadores.
Lima rejeitou as alegações da petição e afirmou que elas reproduzem acusações do início da investigação, que não se sustentariam diante dos elementos reunidos ao longo de dez meses. Ele negou proximidade com o BRB e participação na negociação das carteiras. Também declarou ter deixado a sociedade e a direção do Master em maio de 2024, 1 ano e meio após a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Lima foi preso em novembro na Operação Compliance Zero, com Vorcaro e outros executivos, por suspeita de envolvimento nas fraudes. Foi solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.


