A Rússia colocou os negócios da Nestlé e da Auchan no país sob administração temporária, conforme decreto do presidente Vladimir Putin. A medida transfere o controle dos ativos para uma administradora nomeada pelo Estado e pode abrir caminho para uma futura tomada dos negócios.
A Nestlé afirmou na sexta-feira (18) que adotará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses. A Auchan não comentou a decisão.
Operações das empresas
A Nestlé atua na Rússia desde os anos 1990 e mantém seis fábricas, voltadas à produção de café, alimentos para animais de estimação e fórmulas infantis. A companhia informa ter cerca de 7.000 funcionários no país, que representa aproximadamente 1% de suas vendas globais.
A Auchan iniciou as operações russas em 2002. No fim de 2025, tinha 24.236 empregados e 229 lojas no país. No primeiro semestre de 2026, registrou vendas de 127 bilhões de rublos (R$ 7,7 bilhões). Ao contrário de várias empresas ocidentais, a varejista permaneceu no mercado russo depois da invasão da Ucrânia em 2022.
A administradora designada pelo decreto é a L.E.V. Management, empresa sediada em Moscou, registrada em 2024 e com pouca presença pública. Antes da decisão, a KS Logistika havia pedido ao Kremlin que os ativos russos da Nestlé fossem submetidos ao mesmo regime.
Motivos e efeitos possíveis
A justificativa específica para a escolha da Nestlé ainda não foi esclarecida. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse na sexta-feira (18) que as duas empresas têm sede em países “hostis”, sem mencionar Suíça ou França.
A Rússia tem criticado a posição suíça sobre a guerra na Ucrânia desde que Berna adotou a maior parte das sanções da União Europeia contra Moscou. A Nestlé também estaria sob pressão por não ampliar suas operações russas nem retomar as exportações de produtos fabricados no país.
A administração temporária foi criada em 2023 por decreto presidencial. Nesse modelo, a propriedade não muda formalmente de mãos, mas o administrador indicado pelo Estado passa a controlar os ativos de empresas de países considerados “hostis”.
Desde o início da guerra, o mecanismo foi aplicado às operações russas da Danone, da Carlsberg e da Fortum. Em diversos casos, a administração foi seguida pela venda dos ativos a compradores russos ligados ao Kremlin. A Rússia também passou a exigir descontos obrigatórios, impostos de saída e outras condições para a retirada de empresas estrangeiras.
A medida pode pressionar a Nestlé a reinvestir no país ou forçar sua saída, com pagamento de imposto de saída elevado e venda dos negócios com desconto a um comprador aprovado pelo Kremlin.


