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Internacional

De país de emigrantes a destino migratório, a transformação da Alemanha

A história alemã reúne ondas de emigração, recrutamento de trabalhadores estrangeiros e desafios atuais de integração.

De país de emigrantes a destino migratório, a transformação da Alemanha
Foto: Reuters

A Alemanha, hoje um dos principais destinos migratórios da Europa, foi durante séculos um país de emigração. Milhões de alemães partiram para a América e para a Rússia em busca de trabalho, terras e melhores condições de vida. A partir de meados do século 20, o movimento se inverteu, e o país passou a receber imigrantes.

A migração, porém, continua no centro do debate político alemão. O historiador e pesquisador Jochen Oltmer afirma que os deslocamentos fazem parte da história humana desde a saída dos primeiros seres humanos modernos da África, há cerca de 100 mil a 120 mil anos. “A migração está longe de ser um fenômeno da modernidade; ela é uma condição normal da existência humana”, diz.

Alemães rumo ao exterior

No século 18, Benjamin Franklin criticou a disposição dos alemães de manter sua língua e seus costumes, em uma formulação que hoje poderia ser confundida com ataques dirigidos a refugiados e solicitantes de asilo. Até 1820, cerca de 150 mil alemães haviam deixado o país rumo aos Estados Unidos.

A travessia era cara e arriscada. Os passageiros viajavam durante meses em espaços apertados, abaixo do convés, expostos a pulgas, percevejos e ratos. A alimentação incluía biscoitos marítimos, carne salgada e mingaus, enquanto a água muitas vezes era contaminada. Doenças como disenteria, tifo, varíola e escorbuto atingiam os viajantes.

A historiadora Simone Blaschka, do Museu Alemão da Emigração, afirma que a passagem em um navio a vela custava aproximadamente um ano de salário de um artesão. Para pagar a viagem, muitas famílias precisavam vender praticamente tudo o que possuíam.

Os passageiros mais pobres podiam receber transporte em troca de contratos de trabalho. Ao chegar aos Estados Unidos, esses acordos eram comercializados, e algumas famílias acabavam separadas. Entre os viajantes estava o professor e organista Gottlieb Mittelberger, que registrou em livro as condições da viagem e as mortes ocorridas durante o trajeto.

América e Rússia

Parte dos alemães também se dirigiu para o leste europeu. Em 22 de julho de 1763, a imperatriz russa Catarina, a Grande, publicou um manifesto convidando estrangeiros a ocupar regiões pouco povoadas da Rússia.

O governo oferecia transporte gratuito, terras, isenção de impostos por vários anos, dispensa do serviço militar, acesso à educação e autonomia política. Os colonos podiam manter o idioma alemão e administrar suas próprias comunidades.

No século 19, a América voltou a ser o principal destino. O crescimento populacional, as colheitas fracassadas e os períodos de fome levaram muitas pessoas a concluir que não havia perspectivas para elas nem para seus filhos. Cerca de seis milhões de alemães partiram para o Novo Mundo.

Entre o início do século 19 e a Primeira Guerra Mundial, aproximadamente 60 milhões de europeus emigraram para outras partes do mundo. O Brasil também recebeu esses fluxos, e a chegada de colonos alemães ao país começou em 1824.

A chegada dos trabalhadores convidados

A inversão do fluxo migratório ocorreu em meados do século 20, quando a Europa deixou de ser um continente de emigração e passou a receber imigrantes. Na Alemanha Ocidental, o crescimento econômico das décadas de 1950 e 1960 levou à contratação de trabalhadores estrangeiros.

A partir de 1956, os chamados trens dos trabalhadores convidados transportaram italianos, gregos, espanhóis, portugueses, iugoslavos e turcos para cidades como Stuttgart, Dortmund e Colônia. Eles foram recrutados principalmente para trabalhar na indústria.

Até o fim oficial do programa, em 1973, cerca de 14 milhões de pessoas haviam chegado à Alemanha Ocidental como trabalhadores convidados. Aproximadamente 3 milhões permaneceram definitivamente no país.

Durante muito tempo, entretanto, predominou a ideia de que esses trabalhadores retornariam aos países de origem e, por isso, não seria necessário investir em sua integração. A Alemanha demorou a se reconhecer como um país de imigração.

Integração e debate atual

Segundo o Departamento Federal de Estatísticas, em 2025 mais de 30% da população alemã tinha algum histórico de imigração. Mesmo assim, muitos descendentes de imigrantes ainda não se sentem plenamente aceitos, e o reconhecimento social precisou ser conquistado com esforço.

A Alemanha procura atualmente atrair profissionais qualificados. Refugiados recebem asilo quando são perseguidos politicamente ou fogem de conflitos armados. Para Oltmer, a aceitação varia de acordo com a origem dos migrantes. Ele cita a diferença de tratamento entre sírios, associados à guerra civil, e afegãos, vistos com maior desconfiança durante a crise migratória de 2015.

Os pedidos de asilo representam cerca de 10% da migração para a Alemanha. A maior parte dos deslocamentos ocorre por trabalho, estudo ou reunião familiar. Para Oltmer, concentrar o debate em imagens negativas e escândalos produz uma distorção da realidade.

Os descendentes dos alemães que Franklin chamou de “camponeses rudes do Palatinado” estão integrados à sociedade dos Estados Unidos. Na Alemanha, contudo, a integração ainda enfrenta obstáculos, incluindo a demora na regularização de muitos imigrantes que vivem há anos no país. Oltmer defende uma discussão ampla sobre o futuro da sociedade alemã, mesmo que o debate seja difícil e doloroso.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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