O governo de Javier Milei restringiu a circulação de jornalistas na Casa Rosada, dificultou o acesso a autoridades e manteve uma sequência de ataques públicos contra profissionais de imprensa. A sala destinada aos jornalistas chegou a ser interditada por 11 dias, em um episódio que provocou reação de organizações argentinas do setor.
Fabián Waldman, jornalista que acompanha a Presidência da Argentina há sete anos, afirma que nenhum presidente do país, nos 40 anos de democracia, havia entrado em confronto com a imprensa nos termos observados durante a gestão Milei. Ele cobriu parte do governo de Mauricio Macri, toda a administração de Alberto Fernández e, desde 2023, o atual presidente.
Mudanças dentro da Casa Rosada
Segundo Waldman, o governo passou a impedir que os jornalistas acompanhem a entrada e a saída do presidente do edifício. Também limitou a circulação dos profissionais, o que, na avaliação do jornalista, reduz as possibilidades de apuração. “Desde 1940 até recentemente, jornalistas podiam ir a qualquer área comum da Casa Rosada”, afirmou.
Fernando Stanich, presidente do Fopea, disse que há dificuldade para obter informações de fontes oficiais. De acordo com ele, os profissionais credenciados passaram a enfrentar restrições para conversar com autoridades e circular pelo prédio, algo que não ocorria anteriormente.
A interdição da sala de jornalistas ocorreu depois que a emissora Todo Noticias exibiu imagens de áreas comuns do interior da Casa Rosada feitas com óculos inteligentes. O então chefe de gabinete, Manuel Adorni, declarou que o governo defendia a liberdade de imprensa, mas não permitiria atos que, sob esse argumento, colocassem a segurança nacional em risco.
Antes da interdição, o acesso ao presidente já havia sido reduzido. Waldman relata que a única ocasião em que Milei respondeu a três perguntas seguidas ocorreu em junho de 2024, quando o presidente entrou na sala de imprensa para ofendê-lo. O episódio permanece publicado nas redes sociais de Milei.
Ataques e mobilização oficial
No final de agosto, Milei chamou o jornalista Marcelo Bonelli de “merda humana mal cagada” em razão de uma coluna crítica ao governo. A mesma expressão foi dirigida a outros profissionais. A Adepa, que reúne mais de 180 veículos argentinos, contabilizou 335 mensagens contra a imprensa republicadas pelo presidente no X entre 17 e 23 de agosto. No mesmo intervalo, registrou 26 mensagens próprias de Milei e 21 menções depreciativas ao jornalismo em aparições públicas.
As manifestações ocorreram após um período de quase um mês de ausência do presidente na Casa Rosada. Na volta, no final de agosto, Milei reuniu os ministros e, conforme relatos da imprensa local, pediu que eles participassem de meios de comunicação para defender o governo, que enfrentava rejeição de cerca de 60% a quase um ano das eleições presidenciais.
A Adepa não faz o registro de ataques com periodicidade regular. Em fevereiro de 2025, porém, um levantamento do site Chequeado identificou 1.051 insultos contra políticos da oposição, jornalistas e comentaristas. O total abrangia 439 dias da administração Milei, uma média de 2,4 ofensas por dia.
Queda no ranking regional
A Argentina caiu 69 posições no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa desde 2022 e passou a ocupar o 98º lugar entre 180 países, de acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras. A posição inclui períodos dos governos de Macri e Fernández, além da gestão Milei, iniciada em 2023.
A situação também aparece em outros países latino-americanos governados por aliados de Donald Trump. Em El Salvador, ao menos 40 jornalistas deixaram o país desde que Nayib Bukele assumiu a Presidência, em 2019. O país caiu 74 posições no índice da Repórteres Sem Fronteiras, enquanto um estado de exceção suspende direitos constitucionais há mais de quatro anos.
No Equador, o governo de Daniel Noboa registrou a maior queda da região em 2026, com perda de 31 posições. A organização afirma que, desde o retorno de Trump ao poder, em 2025, os Estados Unidos passaram a promover interferência política na propriedade dos meios de comunicação e investigações com motivação política contra jornalistas e veículos.
Novas restrições na Colômbia
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assumiu em agosto e passou a concentrar a comunicação oficial. Ministros e funcionários precisam de autorização para conceder entrevistas. A exigência levou o Dane a cancelar, de última hora, a entrevista coletiva mensal sobre os resultados da inflação.
Sofía Jaramillo, diretora da Fundação para Liberdade da Imprensa, afirmou que Espriella abriu 109 denúncias penais contra jornalistas entre 2018 e 2020, quando era advogado. Durante a visita do secretário de Estado americano, Marco Rubio, na terça-feira (8), o governo teria vetado alguns veículos da entrevista coletiva. Para Jaramillo, já existe uma seleção entre veículos com acesso e sem acesso.
Ela também afirma que o jornalismo colombiano está mais exposto a pressões econômicas do que organizações como o New York Times ou o Washington Post. Apesar das semelhanças na hostilidade contra jornalistas, a estrutura de mídia da Colômbia é diferente da dos Estados Unidos.


