O mercado financeiro passou a considerar uma elevação dos juros dos Estados Unidos já na reunião desta semana, e não apenas em outubro. A mudança alterou os preços dos ativos, com fortalecimento do dólar e alta dos rendimentos dos Treasuries, títulos do governo americano.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostra que a probabilidade de os juros subirem para a faixa entre 3,75% e 4% avançou de 63% no dia seguinte à última reunião do Fed, em julho, para 86%. Atualmente, as taxas estão entre 3,5% e 3,75%.
A inflação permanece acima da meta de 2%. O PCE, indicador preferido do Fed, acumulou alta de 3,7% nos 12 meses até julho. Já o CPI, índice de preços ao consumidor, subiu 0,4% em agosto. No acumulado de 12 meses até agosto, a alta foi de 3,4%, mesma taxa registrada em julho.
Petróleo e títulos públicos
A escalada da guerra no Irã aumentou o receio de interrupções no fluxo global de petróleo. Na quinta (10), o barril de Brent encerrou o pregão a US$ 109,29, com alta de 7,98%, no maior valor desde maio. O movimento ampliou as preocupações com a inflação e elevou o prêmio exigido pelos investidores para manter títulos públicos.
Nos Treasuries de dois anos, a rentabilidade chegou a 4,64% na última sexta-feira (11), maior nível desde julho de 2024. A taxa do papel de dez anos atingiu 5,05%, o maior patamar desde outubro de 2023. No título de 30 anos, o pico foi de 5,38%, nível mais alto desde junho de 2007.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou no simpósio de Jackson Hole que a instituição teria trabalho a fazer caso a inflação permanecesse acima da meta. Para ele, “o progresso nos últimos dois anos tem sido modesto”.
Emprego reforça pressão sobre o Fed
Além dos preços, o mercado de trabalho passou a pesar na decisão. A economia americana abriu 162 mil vagas fora do setor agrícola em agosto, informou o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA no relatório de emprego, conhecido como payroll. A previsão de analistas era de 55 mil vagas.
O mandato duplo do Fed inclui a estabilidade de preços e o máximo nível de emprego. Com um mercado de trabalho resistente, a inflação ganha peso na definição da política monetária.
Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, a ausência de uma perspectiva de normalização dos fluxos de energia no Golfo Pérsico amplia o risco de pressão inflacionária nos próximos meses.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, afirmou que juros maiores podem aumentar a atratividade dos títulos americanos, fortalecer o dólar e elevar a volatilidade das Bolsas. No Brasil, acrescentou, a possibilidade de corte da Selic ao mesmo tempo em que os juros americanos sobem reduz o diferencial de juros.
Nas últimas semanas, ativos brasileiros foram impulsionados pela alta das commodities, especialmente o petróleo, e pelas perspectivas eleitorais. No ano, a Bolsa brasileira acumula alta de cerca de 16%, enquanto o dólar registra queda de 5,44%.


