CAMBOJA — A publicação da série sobre tráfico humano no Camboja continuou a gerar contatos de vítimas que pedem ajuda para retornar ao Brasil. Embora tenham deixado os complexos onde eram mantidas, essas pessoas ainda enfrentam dificuldades para voltar para casa.
Risco orientou a apuração
A decisão de viajar ao país asiático surgiu depois que um relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontou o Camboja como principal destino de brasileiros vítimas de tráfico humano em 2025. O documento foi elaborado com base em registros do Protocolo Operativo de Atendimento à Vítima e registrou 44 dos 84 casos no país.
Durante a preparação, organizações que auxiliam brasileiros afetados por redes internacionais, vítimas, entidades sociais, fontes do governo e repórteres que já haviam tratado do assunto reforçaram os alertas sobre segurança. A primeira orientação recebida foi uma pergunta sobre como garantir a proteção durante a viagem.
As medidas adotadas incluíram não despachar malas, diante de casos conhecidos em que criminosos colocam drogas na bagagem das vítimas. Também foi levada uma trava para a porta do hotel, especialmente porque a apuração previa passagens por cidades de fronteira com alto fluxo de pessoas traficadas. Quando possível, a hospedagem foi feita em redes internacionais de hotéis.
Complexos e áreas de fronteira
A viagem começou a partir de Pequim, com chegada à capital cambojana, Phnom Penh. A apuração encontrou complexos de golpes em áreas movimentadas. Nesses locais, vítimas ficam presas e são obrigadas a aplicar golpes eletrônicos sob ameaça de tortura.
Os complexos funcionavam em conjuntos com várias torres dedicadas ao crime. Comércios vizinhos atendiam às necessidades das organizações criminosas e eram afetados quando os locais eram esvaziados pela polícia ou por decisão dos líderes dos esquemas.
Em Poipet, relatos de moradores ajudaram a dimensionar a tortura imposta às vítimas. A observação dos arredores também mostrou que muitos prédios estavam desativados. Para organizações sociais como a Anistia Internacional, esse cenário não indica necessariamente uma ação eficiente contra o tráfico humano e os golpes eletrônicos. A avaliação é que a atividade ilegal pode ter se tornado mais distribuída e menos visível.
Estratégias de abordagem
A possibilidade de os esquemas continuarem escondidos levou à adoção de cautela mesmo em prédios aparentemente abandonados. Nos complexos em funcionamento, as imagens foram feitas à distância, da rua ou de dentro de um carro. Em cassinos que ocultavam estruturas usadas para golpes, a entrada ocorreu como cliente.
Cada decisão, desde a produção de uma imagem até o contato com uma possível fonte, foi precedida por uma análise de risco. A apuração buscou entender como os complexos operavam e por que o Camboja aparecia entre os principais destinos de brasileiros traficados.
Depois da publicação, os pedidos de auxílio mostraram que escapar dos criminosos não assegura, por si só, o retorno ao Brasil. A cobertura, portanto, continuou por meio dos relatos de vítimas localizadas em diferentes países.


