A Groenlândia poderá receber uma presença militar ampliada dos Estados Unidos sob um acordo negociado com a Dinamarca e o governo local. O tratado prevê que adversários dos norte-americanos não mantenham bases, presença militar ou investimentos considerados sensíveis na ilha sem autorização de Washington. A assinatura está prevista para a próxima semana, durante a Assembleia Geral da ONU.
O anúncio foi feito pelo presidente Donald Trump, que afirmou que os Estados Unidos terão responsabilidade permanente pela segurança do território. As partes ainda não divulgaram o conteúdo completo do documento.
Segurança e soberania
Trump declarou, em uma publicação na Truth Social, que o acordo permitirá aos Estados Unidos tomar as medidas necessárias para proteger a Groenlândia e o próprio país. Ele também disse que será iniciado o desenvolvimento de uma grande presença militar na área considerada adequada do território.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que o tratado amplia a segurança no Ártico e no Atlântico Norte. Segundo ela, o entendimento também beneficia a Otan e a Europa. O governo da Dinamarca declarou que o texto reconhece a soberania da Groenlândia e, ao mesmo tempo, reforça a segurança regional.
O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, disse que o acordo respeita e reconhece os interesses da ilha e será benéfico a todos. Uma das declarações de Mette Frederiksen sobre o tratado foi: “O acordo ao mesmo tempo reconhece a soberania e a integridade territorial do Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação.”
A Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca, possui governo autônomo e discute a possibilidade de independência. Em 2009, a Dinamarca autorizou a ilha a ter um governo próprio e permitiu que uma declaração de independência fosse submetida a referendo.
Interesses militares e econômicos
A localização da Groenlândia é considerada estratégica por Trump para a defesa dos Estados Unidos e de outros países. A ilha poderia servir ao monitoramento de ameaças provenientes da Rússia e da Europa, com radares e bases capazes de acompanhar navios e submarinos nas águas entre a Islândia, a Grã-Bretanha e o território groenlandês.
A região também foi usada durante a Guerra Fria por russos e americanos, que mantiveram armas nucleares e submarinos no Ártico. Além do aspecto militar, a Groenlândia possui minerais, petróleo e gás natural. A extração mineral enfrenta oposição de povos indígenas e restrições burocráticas, enquanto a exploração de petróleo e gás é proibida por razões ambientais.
A ilha é a maior do mundo, tem 80% de sua superfície coberta por gelo e 57 mil habitantes. Geograficamente, fica na América do Norte, embora mantenha vínculos históricos e políticos com a Dinamarca. Foi uma colônia dinamarquesa e passou a integrar o Reino da Dinamarca em 1953, continuando submetida à Constituição dinamarquesa.
Rússia e China no Ártico
O derretimento do gelo pode aumentar a relevância dos portos e abrir novas rotas de navegação. A mudança interessa à China, que busca ampliar sua atuação no Ártico e investe na construção de navios quebra-gelo.
Uma rota marítima na região reduziria a distância percorrida por embarcações chinesas em relação aos caminhos tradicionais e passaria próxima da Rússia, uma das principais parceiras de Pequim. A China também é a maior produtora mundial de carros elétricos e turbinas eólicas, setores que dependem de minerais considerados estratégicos.
Os Estados Unidos pretendem impedir o avanço chinês na região. O interesse de Washington pela Groenlândia, porém, não começou com Trump. Depois da Segunda Guerra Mundial, o presidente Harry Truman tentou comprar a ilha por US$ 100 milhões em ouro, com o objetivo de obter uma posição estratégica diante das ameaças da Guerra Fria. A proposta foi rejeitada, mas os Estados Unidos instalaram uma base militar no território no início da década de 1950, com autorização dinamarquesa.
Anexação não está prevista
Trump defende há anos a incorporação da Groenlândia aos Estados Unidos. Em seu primeiro mandato, chegou a afirmar que faria uma oferta de compra, mas as autoridades locais responderam que o território não estava à venda. Em janeiro de 2025, voltou a sustentar que a ilha teria utilidade para a defesa americana.
O presidente também afirmou que poderia usar a força para conquistar o território e ameaçou aplicar tarifas contra a União Europeia caso a Groenlândia não fosse cedida. O tom mudou no início deste ano, quando Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos iniciaram conversas baseadas em um tratado de segurança no Ártico.
Uma associação futura com os Estados Unidos dependeria, em tese, de uma eventual independência aprovada pelos habitantes da ilha. Uma pesquisa realizada no fim do ano passado mostrou que 6% da população apoiava a incorporação aos Estados Unidos. Especialistas consideram essa possibilidade pouco provável.

