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Justiça

Estudos questionam poder decisivo de algoritmos sobre o voto

Pesquisas em cognição e eleições indicam que identidade política e modelos mentais pesam mais que conteúdos gerados por IA.

Estudos questionam poder decisivo de algoritmos sobre o voto

A definição do voto é influenciada principalmente por identidades políticas, vínculos sociais e modelos mentais formados antes do contato com conteúdos digitais, segundo análises de ciência cognitiva e estudos sobre eleições recentes. Essa interpretação questiona a ideia de que algoritmos e ferramentas de inteligência artificial (IA) tenham poder decisivo para converter eleitores ou determinar resultados eleitorais.

Identidade e racionalidade expressiva

Steven Pinker, com base nos trabalhos de Hugo Mercier e Dan Sperber, afirma que o cérebro humano não funciona como um processador lógico neutro. A razão teria evoluído para a produção e a avaliação de argumentos em situações sociais, sobretudo na defesa dos interesses do indivíduo e de seu grupo.

Nesse processo atuam o viés do-meu-lado e o raciocínio motivado. A capacidade cognitiva é direcionada para confirmar conclusões compatíveis com convicções políticas. Keith Stanovich sustenta que esse mecanismo não representa falta de inteligência, mas uma forma de preservação identitária que ganha força em temas políticos e morais.

O voto, nessa perspectiva, também expressa lealdade e pertencimento. Peter Ditto revisou cinquenta estudos e concluiu que liberais e conservadores apresentam níveis semelhantes de assimetria cognitiva: aceitam com facilidade informações que confirmam suas posições e submetem a exame mais rigoroso os dados que as contradizem.

Um experimento de Dan Kahan sobre controle de armas ilustra o fenômeno. Participantes analisaram dados numéricos sobre a relação entre medidas de controle de armas e criminalidade. Democratas com maior capacidade matemática acertavam os cálculos quando os dados apoiavam o controle, mas erravam quando apontavam na direção contrária. O padrão se repetia entre republicanos diante de números favoráveis ao desarmamento.

Redes sociais e crenças políticas

Pinker distingue duas zonas de crença. A mentalidade da realidade abrange experiências diretas e regras práticas do cotidiano. Já a mentalidade da mitologia envolve o passado distante, o futuro incerto e narrativas políticas ou ideológicas. Nesse segundo campo, as crenças funcionam como instrumentos de solidariedade e sinalização moral do grupo.

O caso conhecido como Pizzagate é usado para ilustrar essa distinção. O rumor afirmava que democratas mantinham uma rede de tráfico infantil no porão de uma pizzaria em Washington. Embora milhões de internautas tivessem compartilhado a história, a reação predominante foi deixar uma avaliação de uma estrela no Google para o estabelecimento, e não agir como se a acusação tivesse sido comprovada. Edgar Welch foi a exceção: invadiu o local armado para tentar salvar as crianças.

A conclusão apresentada por Pinker é que as redes sociais funcionam como canal de circulação para demandas psicológicas que já existiam. Boatos e teorias conspiratórias precedem a internet, assim como a polarização política tem raízes em formas anteriores de fragmentação da imprensa e em meios especializados de informação. Alterar algoritmos, portanto, não eliminaria a procura por narrativas usadas como argumentos na disputa ideológica.

Como novas informações são assimiladas

David McRaney descreve o cérebro como uma estrutura voltada à previsão, que registra correlações percebidas no ambiente e forma modelos mentais. Ao receber uma informação, o indivíduo pode assimilá-la ao modelo já existente ou acomodar sua compreensão para incorporar uma evidência contraditória.

A assimilação enviesada enquadra os fatos de modo compatível com crenças anteriores e rejeita aquilo que as contesta. A acomodação exige a reconstrução do modelo mental e pode ser desconfortável. McRaney observa que o cérebro tende a preencher lacunas com explicações provisórias e narrativas causais, preferindo uma certeza fictícia à dúvida.

A mudança se aproxima das transições de paradigma descritas por Thomas Kuhn. Na ilusão do pato-coelho, por exemplo, o desenho permanece igual, mas a percepção muda quando o observador reinterpreta seu modelo mental. Aplicada ao voto, essa formulação indica que estímulos externos raramente produzem conversão sem uma alteração prévia das estruturas internas de interpretação.

Evidências em eleições recentes

Felix Simon, da Universidade de Oxford, e o psicólogo Sacha Altay afirmam que o temor de que IA e desinformação determinem eleições é exagerado. Uma das barreiras é a atenção limitada: o eleitor dispõe de poucas horas livres para consumir conteúdo político, o que cria disputa pelo seu foco.

A desinformação sintética também não atua de forma isolada. Pessoas mais propensas a consumir e compartilhar deepfakes tendem a ter posições partidárias já consolidadas por relações familiares, fatores socioeconômicos e afinidades identitárias. Nesse quadro, conteúdos gerados por IA reforçam vieses, mas não funcionam necessariamente como instrumentos de conversão de eleitores indecisos.

A facilidade de acesso às ferramentas ainda produz uma disputa simétrica entre forças partidárias. Como os grupos utilizam recursos semelhantes, possíveis vantagens exclusivas tendem a ser anuladas por um equilíbrio tático.

Em eleições recentes, conteúdos manipulados não produziram os efeitos atribuídos a eles. Na Irlanda, em 2025, um deepfake simulou a desistência de Catherine Connolly três dias antes da eleição. Ela venceu com 63% dos votos. No Equador, em 2025, vídeos com logotipos falsos da CNN tentaram associar Daniel Noboa a esquemas de corrupção; ele foi reeleito com 56% dos votos.

Na Alemanha, vídeos forjados que usavam a imagem do MI6 e da polícia alertaram falsamente para ameaças terroristas nos locais de votação, sem alterar o comparecimento ou o resultado. Na Romênia, deepfakes de candidatos presidenciais foram usados principalmente em fraudes e golpes financeiros.

Na Eslováquia, em 2023, um áudio falso atribuído a Michal Šimečka foi divulgado durante o período de silêncio eleitoral. Investigações posteriores concluíram que a vitória de Robert Fico esteve ligada a fatores políticos estruturais, incluindo a suscetibilidade histórica de parte do eleitorado à propaganda pró-Kremlin desde 2010, e não à peça isolada.

No Paquistão, em 2024, Imran Khan, então encarcerado, utilizou IA para discursar a apoiadores. A tecnologia funcionou como canal de comunicação para uma base eleitoral já consolidada. A eleição presidencial romena de 2024 foi anulada após provas de interferência russa, uso de robôs e financiamento ilegal.

Esses casos sustentam a avaliação de que algoritmos e IA não são soberanos na definição do voto. A decisão eleitoral resulta da interação entre identidade, pertencimento, racionalidade expressiva e modelos mentais. Para o Direito Eleitoral, a análise sugere que respostas à desinformação devem considerar a autonomia e a capacidade reflexiva do eleitor, além do funcionamento das tecnologias.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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