SÃO PAULO — O residencial Tequici, que desabou no distrito da Penha, na zona leste de São Paulo, era construído com alvenaria estrutural. O método dispensa, em geral, vigas e pilares e usa paredes e blocos como elementos de sustentação. O colapso ocorrido no sábado (12) deixou Seis pessoas mortas e duas feridas.
Especialistas afirmam que esse sistema é consolidado e seguro quando segue o projeto e os procedimentos técnicos previstos. A técnica, porém, exige controle sobre os materiais, as fundações, a argamassa e a disposição dos blocos. Perfurações não planejadas, retirada de paredes internas e uso de componentes sem resistência suficiente podem comprometer a estrutura.
A causa do desabamento dependerá de perícia. A análise deverá considerar o projeto, a execução, os materiais empregados e as condições das fundações, e pode durar meses.
Investigação sobre o edifício
Na quarta-feira (16), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que a construtora New Home sabia de problemas estruturais e teria feito, em maio, um orçamento para reforçar o prédio. Segundo ele, a intervenção não foi realizada por causa dos custos previstos.
A defesa do engenheiro Ronaldo dos Santos Vivaqua, apontado como sócio oculto da empresa, contestou informações divulgadas por autoridades e afirmou que só se manifestará após a conclusão do trabalho técnico e o acesso integral à investigação. A defesa também mencionou uma movimentação recente e intensa de terra em um terreno vizinho. Vivaqua está preso.
O advogado que antes se apresentava em nome da New Home informou que passou a representar apenas Cristiano Salgado Vivaqua, engenheiro responsável pela obra e filho de Ronaldo. Cristiano e a sócia-administradora Isis de Freitas Rodrigues Brandão estão foragidos. Não foi identificada representação formal da construtora.
A polícia também apura possível responsabilidade da servidora Viviane Rodrigues de Palma. Um relatório de visita elaborado por ela levou à extinção de uma ação demolitória movida pela prefeitura.
Características do método
Na alvenaria estrutural, os blocos suportam mais carga que um tijolo comum. Em edifícios mais altos, os componentes dos primeiros pavimentos precisam ter maior resistência. A estabilidade também depende das fundações, do preenchimento de determinados pontos com cimento e da argamassa.
O método se difundiu no Brasil especialmente desde os anos 1990 e é empregado em prédios de até 30 andares. Em São Paulo, algumas das principais empresas do mercado imobiliário utilizam a tecnologia.
Imagens externas do Tequici, registradas entre 2021 e 2024 e compartilhadas na internet, mostram possíveis problemas na distribuição dos blocos, trincas e furos em paredes de sustentação. As imagens foram captadas pelo Google Street View. O engenheiro civil e perito Alexandre Fontolan identificou indícios de intervenções que considerou atípicas, mas ressaltou que a avaliação é superficial e não substitui a perícia.
No edifício, especialistas apontaram uma possível falha na chamada amarração dos blocos. Nesse procedimento, as juntas devem ser intercaladas; quando ficam alinhadas verticalmente, a distribuição da estrutura pode ser afetada. Também foram observados furos em paredes, possivelmente para a instalação de uma bandeja de proteção. Segundo Fontolan, aberturas podem ser feitas, desde que previstas e verificadas no projeto.
Luciana Oliveira, diretora técnica da unidade de negócios de Habitação e Edificações do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, afirmou que a técnica é adotada por reduzir custos, acelerar a obra e oferecer outras facilidades. Ela disse que moradores de prédios construídos dessa forma não precisam se preocupar apenas por causa do sistema. Para Oliveira, um colapso pode estar relacionado a falhas no projeto, na execução ou no controle de qualidade.
A especialista citou os prédios-caixão da Grande Recife, onde foram encontrados tijolos inadequados para a alvenaria estrutural. Em 2023, um desabamento na região matou 14 pessoas. Ela explicou que sinais de problemas podem incluir trincas, deformações e estalos, embora falhas nas fundações possam ser mais difíceis de perceber por ocorrerem no subsolo.
Aurélio Franceschi, perito e coordenador da Câmara Técnica de Estruturas e Patologia das Construções do Instituto de Engenharia do Paraná, defendeu uma apuração conduzida por equipe técnica e aprofundada. Segundo ele, a tecnologia aplicada à alvenaria estrutural evoluiu, acompanhando a expansão do método no mercado imobiliário. Edifícios mais altos, afirmou, exigem materiais específicos e cálculos mais sofisticados.

