A busca por uma creche para os filhos ou por atendimento em um posto de saúde tem mais peso para a classe C do que a disputa ideológica entre direita e esquerda, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. Para o pesquisador, o grupo se orienta por um pragmatismo político ligado às necessidades do cotidiano.
A classe C reúne 107 milhões de pessoas e, segundo Meirelles, expressa as dinâmicas da sociedade brasileira por estar no meio da distribuição de renda e representar a maioria da população. Ele analisa esse segmento no livro “Brasil da Maioria”, publicado pela Record, que trata das mudanças ocorridas nos últimos 25 anos, além de hábitos de consumo, posições políticas e valores sociais.
Conservadorismo e serviços públicos
Meirelles afirma que o conservadorismo da classe C existe, mas convive com empatia por pessoas que enfrentam dificuldades no dia a dia. O grupo também demonstra rejeição a soluções punitivistas, de acordo com a análise apresentada no livro.
O pesquisador acompanha o comportamento da população de baixa renda no Brasil desde o começo dos anos 2000. Na avaliação dele, tanto a direita quanto a esquerda têm dificuldade para compreender o que essas pessoas esperam do Estado e como definem sua própria prosperidade material.
Para Meirelles, o mau humor de parte da classe C com a economia brasileira é mais bem capturado pelo bolsonarismo do que por Lula em uma campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, pautas como o fim da escala 6x1 podem favorecer o campo do presidente por dialogarem com a ideia de empoderamento do trabalhador.
O voto feminino também é apontado como um fator favorável a Lula. Segundo o pesquisador, as mulheres tendem a rejeitar o radicalismo e demonstram maior sensibilidade à qualidade dos serviços públicos.
A análise faz parte da discussão sobre “Brasil da Maioria”, obra dedicada às transformações da classe C e às expectativas desse grupo em relação à política e ao Estado.


