O próximo presidente da República deverá lidar por pelo menos mais dois anos com uma relação difícil com Donald Trump, segundo especialistas. O governo dos Estados Unidos tende a continuar pressionando o Brasil para abrir espaço a interesses americanos e para reduzir sua aproximação com a China.
A disputa também alcança a política interna. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), apesar da proximidade do candidato com Trump, teria de considerar a dependência da economia brasileira em relação a Pequim. Entre os demais desafios estão a pressão americana contra a regulação das big techs, o combate ao narcotráfico transnacional e as decisões sobre investimentos estrangeiros em terras raras e minerais críticos.
Disputa eleitoral e relação com os EUA
Após o tarifaço e as sanções de Trump contra o Brasil, a política externa ganhou espaço na eleição presidencial deste ano. Flávio Bolsonaro passou a enfrentar críticas pela proximidade com o presidente americano e menciona pouco o tema em seu programa de governo. O candidato tenta se diferenciar da diplomacia ideológica do mandato de Jair Bolsonaro.
No programa enviado ao TSE, Flávio não cita Brics, Mercosul ou Donald Trump. O documento tem 75 páginas, das quais 2,5 são dedicadas à política externa. A proposta defende uma diplomacia baseada no profissionalismo e no pragmatismo e prevê a reaproximação com Argentina, Israel e Estados Unidos, além de negociações com China, União Europeia e mercados asiáticos.
Em artigo publicado no começo de setembro, Eduardo Bolsonaro defendeu um realismo propositivo, planejamento de longo prazo e reforma administrativa no Itamaraty. Sobre os Estados Unidos, escreveu: “Com os EUA, precisaremos reconstruir uma relação histórica e definir uma agenda de cooperação que vá muito além de tarifas e comércio.” Para a China, propôs preservar oportunidades econômicas, reduzir dependências e avaliar a presença chinesa em setores sensíveis.
Em entrevistas, porém, Flávio afirmou que o Brasil não deveria ser marcado pela “submissão à China”, criticou negociações comerciais em moedas diferentes do dólar e disse que poderia considerar a saída do Brics. Também prometeu parcerias preferenciais com os Estados Unidos na exploração de minerais críticos e defendeu um acordo de livre comércio com o país.
Soberania e minerais críticos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou política externa e defesa no centro de seu programa, associando os temas à soberania e ao desenvolvimento. Seu programa menciona variações de soberania e soberano 42 vezes e apresenta a defesa da soberania nacional e do protagonismo internacional do Brasil como eixo específico.
A campanha de Lula relaciona a política externa à regulação das big techs, ao controle de investimentos estrangeiros em minerais críticos e ao combate às organizações criminosas transnacionais. O candidato também promete manter a prioridade dada às instituições multilaterais e à aproximação sul-sul.
Os minerais críticos ganharam peso estratégico por sua aplicação na indústria de defesa, em carros elétricos e em tecnologias de alta complexidade. Estados Unidos, China e Europa disputam acesso aos depósitos brasileiros de terras raras. No começo do mês, o Senado aprovou um marco legal que cria um conselho com poder de veto sobre parcerias estrangeiras; as competências do órgão ainda serão definidas.
Durante o governo Lula, o Brasil não aderiu à iniciativa de minerais críticos dos Estados Unidos nem ao Escudo das Américas, aliança militar criada por Trump em março de 2026 para combater cartéis. O país também não entrou no Pax Silica, grupo de inteligência artificial criado por Trump, e integra a Waico, aliança rival formada pela China.
Em um eventual novo mandato, Celso Amorim poderia deixar a assessoria internacional da Presidência em algum momento para Audo Faleiro. Mauro Vieira deve continuar no Itamaraty, enquanto Mauricio Lyrio aparece como alternativa para o posto. Cinco campanhas responderam sobre seus planos de política externa: Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Lula, Renan Santos e Augusto Cury. A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos.

