A família de María Chacon, em Tucson, no Arizona, perdeu a cobertura do Medicaid e agora tenta garantir os medicamentos de Jesus, seu filho, que depende de um respirador para sobreviver. O tratamento do jovem custa aproximadamente US$ 7 mil por mês, e o estoque disponível deve terminar em meados de outubro.
Jesus sofreu um acidente de carro aos 17 anos, há quase cinco anos, e desde então não consegue respirar sozinho. Ele utiliza ventilação mecânica, alimentação por sonda e medicamentos diários. Também precisa de cuidados permanentes para evitar feridas provocadas pela permanência prolongada na mesma posição.
A família, originária do México, entrou legalmente nos Estados Unidos em 2018, com um visto destinado a vítimas de tráfico humano. Até o início deste mês, o Medicaid cobria cerca de US$ 25 mil mensais em despesas médicas, além de uma pequena compensação financeira para María e o marido, responsáveis pelos cuidados do filho.
Com a alteração das regras, a família ficou sem o benefício. María recorre da decisão junto às autoridades estaduais e tenta obter o green card, documento que concede residência permanente nos Estados Unidos. Ela afirma que não pode voltar ao México porque a condição de saúde de Jesus impede a viagem. “Desde aquele dia, não consigo dormir. Não conseguimos comer. Ficamos nos perguntando o que vamos fazer”, disse.
Quem deixou de ter cobertura
Novas regras federais passaram a valer em 1º de outubro e restringiram o acesso ao Medicaid para determinados grupos de imigrantes. O programa é financiado pelo governo federal e pelos estados americanos e atende principalmente pessoas de baixa renda, incluindo crianças, gestantes, idosos e pessoas com deficiência que cumprem os critérios de elegibilidade.
Refugiados e pessoas que receberam asilo, mas ainda não têm green card, estão entre os grupos que perderam o direito à cobertura federal. A legislação mantém o benefício para imigrantes com green card, observadas as demais exigências, para determinados imigrantes de Cuba e do Haiti e para cidadãos de países que mantêm acordos específicos de livre associação com os Estados Unidos.
Crianças e gestantes que vivem legalmente no país continuam elegíveis nos estados que oferecem cobertura a esses grupos. Mesmo para quem tem green card, o acesso não é necessariamente imediato: em muitos casos, existe uma espera de cinco anos, com exceções previstas na legislação.
Segundo a KFF, mais de 281 mil imigrantes de nove estados americanos e do Distrito de Columbia podem perder a cobertura. No Arizona, 29 mil pessoas foram excluídas do programa no início deste mês. Na Flórida, a previsão é de aproximadamente 177 mil afetados.
Ben D'Avanzo, estrategista sênior do National Immigration Law Center, afirmou que parte dos beneficiários pode descobrir a perda do Medicaid apenas ao procurar atendimento médico. A porta-voz da Casa Branca, Lauren Bis, disse que os imigrantes devem conseguir se sustentar sem depender de programas assistenciais financiados pelos contribuintes americanos.
Reforma prevê cortes até 2034
A restrição para imigrantes integra uma reforma mais ampla aprovada em 2025. A legislação sancionada por Trump em julho de 2025 também prevê novas exigências para determinados beneficiários, incluindo regras relacionadas ao trabalho e verificações mais frequentes de elegibilidade. Muitas dessas medidas devem entrar em vigor em 2027.
A KFF estima que a reforma reduzirá os gastos federais com o Medicaid em aproximadamente US$ 911 bilhões ao longo de dez anos. O Escritório de Orçamento do Congresso calcula que as mudanças podem deixar 7,5 milhões de pessoas sem seguro de saúde até 2034. A estimativa inclui cidadãos americanos afetados por outras restrições, além dos imigrantes.
O governo apresenta as alterações como uma forma de reduzir gastos públicos e combater irregularidades no programa. Organizações de defesa dos imigrantes afirmam que a perda da cobertura pode interromper tratamentos e aumentar a procura por atendimentos de emergência.
Carmen Feliciano, vice-presidente de políticas e defesa da UnidosUS, disse que a redução do acesso pode levar pacientes a adiar consultas e medicamentos até que os sintomas se agravem. Nesses casos, problemas tratáveis na atenção básica podem exigir atendimentos mais complexos e caros em prontos-socorros.
A organização trabalha com entidades comunitárias para ampliar o acesso à assistência médica, mas Carmen afirmou que essas instituições já enfrentam dificuldades para atender à demanda atual. “Não teremos capacidade para atender a todas as pessoas que precisam”, disse.


