Documentos divulgados nesta sexta-feira (11) descrevem uma atuação coordenada de funcionários do Banco Master na geração e alteração de arquivos usados para sustentar cessões de créditos ao Banco de Brasília (BRB). O material foi encontrado pela Polícia Federal no acervo digital entregue pelo liquidante do banco, durante a Operação Compliance Zero.
A apresentação interna, intitulada “Investigações internas – Banco Master”, registra a participação de áreas com funções distintas, desde a extração de dados até a produção, assinatura e remessa dos documentos. Diretores, gerentes, equipes de tecnologia e setores operacionais aparecem relacionados às etapas descritas.
Documentos gerados a partir de dados de clientes
Segundo a PF, informações do CredCesta, programa de crédito consignado ligado ao Master, foram utilizadas para criar em massa Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento. Parte desse material teria sido usada para comprovar créditos vendidos ao BRB.
Um dos casos envolve o gerente Allan da Silva Machado. Com uma planilha e o recurso de mala direta do Word, ele teria produzido 2.700 procurações. Os arquivos foram guardados em uma pasta identificada como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.
A PF considera provável que parte desse lote tenha integrado uma amostra de 1.785 contratos remetida ao BRB como comprovação de créditos atribuídos à Tirreno. A investigação sustenta que parte dos créditos consignados apresentados como originados pela empresa não tinha o lastro informado e que documentos teriam sido produzidos depois para respaldar as operações.
Comprovantes e datas sob discussão
Mensagens incluídas na apresentação indicam que Allan pediu à funcionária da tesouraria Romy Goerck Gentina Klenquen comprovantes de transferência sem referências que permitissem localizar contratos e transações. A PF classificou o episódio como indício de tentativa de manipulação e mencionou uma “provável emissão de comprovantes de transação manipulados”.
Em outra conversa, Allan solicitou a Moacir Lourenço da Silva Junior, da área de tecnologia, a retirada de datas dos termos de consentimento. Para a PF, a mudança dificultaria verificar quando os clientes haviam formalizado a autorização.
Um dos documentos analisados indicava celebração em 21 de janeiro de 2025, mas a assinatura eletrônica ocorreu em 20 de junho daquele ano, cerca de cinco meses depois. A perícia considera que a remoção de datas ajudava a esconder inconsistências e reforçava a hipótese de produção posterior dos arquivos.
Divergências apontadas pela auditoria
As inconsistências também foram identificadas no trabalho da Deloitte, responsável pela auditoria das carteiras. Conforme a PF, o coordenador de controles Fabrizio Pereira Alencar perguntou ao diretor Alberto Felix de Oliveira Neto como responder às cobranças sobre contratos divergentes.
Após a comunicação dos auditores, Alberto orientou que as diferenças fossem atribuídas a um erro operacional na seleção. Os contratos mencionados pertenciam à carteira da Tirreno e correspondiam ao período de dezembro de 2024 a março de 2025.
A apresentação foi produzida pelo próprio Master para registrar comportamentos considerados inadequados em uma apuração interna. O documento relaciona participantes, atividades e mensagens, além de descrever alterações em CCBs, procurações, termos de consentimento e comprovantes.
Análise das operações
A PF afirma que os episódios não constituem falhas isoladas. A perícia examinou R$ 47,78 bilhões em operações entre o BRB e o Master. Desse montante, R$ 31,74 bilhões correspondiam à venda de carteiras de crédito do banco privado ao banco público.
Entre as práticas identificadas estão pagamentos anteriores ao fim das análises técnicas, pareceres concluídos depois da liberação dos recursos e divisão de compras em valores menores para permanecer dentro do limite de decisão da diretoria. Os peritos também apontaram ausência de avaliação ampla e independente dos riscos, concentração das aquisições em uma única instituição e continuidade dos pagamentos após alertas financeiros e problemas nas carteiras.
Na avaliação da PF, etapas destinadas a analisar riscos, autorizar negócios e controlar a liberação de recursos foram contornadas ou concluídas apenas depois dos pagamentos. A repetição desses procedimentos levou os peritos a apontar elementos técnicos e documentais compatíveis com gestão fraudulenta na compra das carteiras do Master.


