A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição de domingo (6) na Saxônia-Anhalt aumentou a pressão sobre partidos tradicionais e reacendeu o debate sobre o avanço da extrema direita na Europa. O resultado, em um estado do leste alemão, foi interpretado por analistas como possível sinal para eleições previstas em outros países do continente.
A AfD obteve mais que o dobro dos votos do partido de centro-direita do premiê Friedrich Merz, em um cenário marcado pela alta dos preços e pelo elevado desemprego. Resultados quase definitivos indicaram que a legenda ficou pouco abaixo da maioria absoluta, mas partidos rivais prometeram não formar uma coalizão com ela. Por isso, a AfD pode não assumir o governo estadual.
A inteligência alemã classifica o partido como grupo extremista — “comprovadamente” em alguns estados e “sob suspeita” em outros. A avaliação considera, entre outros pontos, o fato de a legenda retratar alemães de origem imigrante como cidadãos de segunda classe. Líderes da AfD também já usaram slogans nazistas e minimizaram o Holocausto.
Efeito sobre a Alemanha e a Europa
O desempenho da AfD pode enfraquecer Friedrich Merz caso integrantes de seu partido o responsabilizem pela derrota. A posição do premiê já vinha se deteriorando, a ponto de analistas políticos discutirem abertamente a possibilidade de sua destituição. A hipótese era antes considerada remota na política alemã.
Para Mujtaba Rahman, analista especializado em Europa do Eurasia Group, o resultado está relacionado à dificuldade dos governos de responder às preocupações econômicas dos eleitores. “Os governos não conseguem responder às preocupações com o custo de vida. Não conseguem entregar resultados aos eleitores”, afirmou.
Rahman também avaliou que uma Alemanha enfraquecida reduziria a capacidade europeia de enfrentar seus desafios. O país, que desde o nazismo mantém distância de partidos de extrema direita, passou a ser observado como referência para outras forças nacionalistas por causa da mensagem populista e anti-imigração da AfD.
Na França, Emmanuel Macron deixará a Presidência em 2027. Marine Le Pen, candidata do partido de ultradireita Reunião Nacional, lidera com ampla margem as pesquisas de primeiro turno e apareceu na primeira colocação em simulações recentes de segundo turno. Segundo Rahman, uma eventual vitória da ultradireita em Paris poderia desestabilizar a União Europeia, considerando o tamanho da França, seu arsenal nuclear e seu papel fundador no projeto europeu.
Philippe Marlière, professor de política francesa e europeia da University College London, afirmou que a frente antifascista que prevaleceu desde o fim da Segunda Guerra Mundial parece próxima de perder força na Alemanha e na França.
Disputa em outros países
A Espanha deverá realizar eleições até agosto, enquanto a Itália deverá fazê-lo até o fim do próximo ano. Na Espanha, analistas avaliam que o Vox pode pressionar para integrar o próximo governo de coalizão. O atual governo socialista enfrenta desgaste por escândalos de corrupção e uma crise migratória.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni, cujo partido tem raízes neofascistas, moderou o tom em temas como a Ucrânia e a União Europeia. O governo se tornou o mais duradouro de forma ininterrupta na história da República Italiana. A projeção de Roberto Vannacci, um rival situado ainda mais à direita, levou Meloni a endurecer posições sobre imigração.
No Reino Unido, o Partido Trabalhista afastou em julho o primeiro-ministro Keir Starmer para tentar recuperar terreno diante do avanço do Reform UK. A ascensão da legenda foi interrompida por escândalos financeiros envolvendo seu líder, Nigel Farage, o que deu fôlego ao governo trabalhista comandado por Andy Burnham.
Farage também enfrenta a concorrência de Rupert Lowe, que deixou seu partido para criar um grupo ainda mais à direita. Na Hungria, Viktor Orbán foi retirado do poder em abril, após 16 anos, em meio à percepção de que seu governo era corrupto, negligenciava a economia e mantinha conflitos desnecessários com a União Europeia. A derrota do Fidesz foi vista por políticos tradicionais como um sinal de que a ultra e a extrema direita também podem ser derrotadas.
Timothy Bale, professor de política da Queen Mary University of London, afirmou que o impacto do avanço da AfD dependerá da capacidade do partido, caso chegue ao poder, de administrar o governo com competência e de se comportar de maneira relativamente normal.


