A decisão de um juiz militar de excluir confissões de Khalid Sheikh Mohammed feitas a agentes do FBI voltou a ampliar as incertezas sobre o processo relacionado aos atentados de 11 de Setembro. O julgamento está marcado para junho de 2028, mas familiares das vítimas temem que novas disputas provoquem atrasos ou impeçam que alguns deles acompanhem o desfecho.
Mohammed, também conhecido pelas iniciais KSM, está detido há 20 anos na base naval americana de Guantánamo, no sudeste de Cuba. Ele foi acusado de crimes como conspiração e assassinato. A ata de acusação menciona 2.976 vítimas.
Confissões retiradas do processo
As declarações de Mohammed foram obtidas depois que ele foi transferido para Guantánamo, após anos em prisões secretas da CIA. O juiz considerou que o tratamento recebido representou “extraordinário abuso físico e mental” e concluiu que as confissões não foram voluntárias. Por isso, elas não poderão ser usadas no julgamento.
A decisão ocorreu poucos dias depois da definição da data do julgamento. John Ryan, autor de um livro sobre o caso, afirmou que a promotoria perdeu a prova considerada mais sólida contra Mohammed. Os promotores ainda contam com ligações telefônicas interceptadas e gravações secretas, mas a defesa pode pedir que essas provas também sejam excluídas.
Para Kasey McCall-Smith, professora de direito internacional da Universidade de Edimburgo, os atrasos estão ligados principalmente à discussão sobre a tortura. O processo anterior ao julgamento já passou por cinco juízes militares. Essas audiências precisam definir quais provas poderão ser apresentadas, etapa que pode influenciar a duração do julgamento.
Familiares divididos sobre o caminho judicial
Stephan Gerhardt, cujo irmão mais novo, Ralph, morreu nos atentados, viajou seis vezes a Guantánamo. Ele afirma que gostaria de acompanhar as condenações, mas tenta preservar as lembranças do irmão e manter objetos que pertenceram a ele. Sua maior preocupação é que Mohammed e os demais acusados morram sem condenação.
Gerhardt e Resta estiveram na base no início de 2025, quando Mohammed e outros dois acusados deveriam se declarar culpados em um acordo com promotores do governo americano. A medida evitaria um julgamento que poderia terminar com pena de morte, mas a declaração foi suspensa de última hora. A disputa sobre a validade do acordo continua.
Resta apoiava o acordo porque queria garantir uma condenação. Brett Eagleson, filho de Bruce, morto nos atentados, preferia um julgamento completo, com apresentação de provas e exposição pública do caso. O governo americano sustentou que abrir mão de um julgamento público e da possibilidade de pena capital causaria danos “irreparáveis”.
Processo ainda sem conclusão
Resta trabalhava com a mulher no 92° andar da Torre Norte do World Trade Center. Os dois planejavam ter um bebê quando ocorreram os ataques. Ele viajou quatro vezes a Guantánamo para acompanhar as audiências preliminares e descreveu o processo como árduo e tedioso.
“Depois de tanto tempo, ainda tenho um nó na garganta”, declarou Resta. Ele afirmou que os atentados permanecem em sua mente de forma quase constante e disse temer que seu pai, que completará 98 anos em novembro, não viva para assistir ao julgamento.
Os ataques envolveram dois aviões lançados contra o World Trade Center, em Nova York, e outro contra o Pentágono, na Virgínia. Um quarto avião caiu em um campo na Pensilvânia depois da resistência dos passageiros.
Quando começar, o julgamento diante do tribunal militar de Guantánamo deverá durar cerca de um ano. Para os familiares, porém, a definição da data ainda não encerra o caso. “Não quero voltar para este lugar”, afirmou Gerhardt. “Quero viver minha vida e desfrutar dos meus hobbies e das recordações de Ralph.”


