Em 2004, a eleição para prefeito de Indaial, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, foi definida por uma diferença de um voto. A margem só apareceu quando uma urna ainda não contabilizada entrou na apuração. Até aquele momento, nenhum eleitor poderia saber se o próprio voto seria determinante.
O mesmo tipo de resultado ocorreu em 2024 em quatro municípios. Em Olho d’Água do Borges, no Rio Grande do Norte, o vencedor recebeu 2.178 votos, contra 2.177 do segundo colocado. Em Rosário da Limeira, em Minas Gerais, foram 2.037 votos contra 2.036. Fernão, em São Paulo, e Gentil, no Rio Grande do Sul, também tiveram diferença de um voto. Juntos, os quatro municípios somam 13,5 mil eleitores.
No mesmo ano, outras 27 cidades elegeram prefeitos por margens inferiores a dez votos. Em 2020, esse número havia sido de 50 cidades. Em Inhaúma, em Minas Gerais, houve empate entre os dois primeiros colocados, resolvido pelo artigo 110 do Código Eleitoral, que determina a eleição do candidato mais idoso em caso de igualdade.
O voto decisivo e a probabilidade
Em uma disputa com dois candidatos e 201 eleitores, se Ana e Bruno recebessem 100 votos cada, o voto do eleitor de número 201 definiria o vencedor. Esse seria o voto decisivo: aquele que desempata a eleição quando os demais votos ficam igualmente divididos.
A posição não pode ser conhecida antes da apuração. Em uma eleição com 4.355 votos válidos, sem contar brancos e nulos, a probabilidade de um voto individual ser decisivo é de 1,2%, ou cerca de 1 em 80. Em uma eleição nacional com milhões de votos, a estimativa cai para cerca de 1 em 10 milhões.
Essa probabilidade, porém, não significa que o voto decisivo deixe de existir. Ela é calculada antes da contagem, enquanto o voto decisivo é identificado pela margem observada depois que todas as urnas são apuradas. Também não se deve interpretar 1,2% como a frequência de eleições definidas por um único voto.
Em Olho d’Água do Borges, a retirada de qualquer um dos 2.178 votos do vencedor levaria a um empate. Da mesma forma, a participação de um eleitor ausente que votasse no segundo colocado também poderia produzir igualdade. O resultado é formado pela soma de todos os votos, e nenhum deles vem identificado como o responsável pela diferença, porque o voto é secreto.
A participação e o resultado
A relação pode ser comparada a uma partida de futebol que termina em 3 a 2. A retirada de qualquer um dos três gols do vencedor deixaria o placar empatado em 2 a 2. Só depois do apito final é possível dizer que houve vitória por um gol de diferença.
Na eleição, o eleitor que não comparece não acrescenta voto ao resultado. A ausência pode alterar a margem, assim como a presença pode contribuir para definir o vencedor. Por isso, a conclusão de que um voto individual não importa ignora que a margem só se torna conhecida depois da última urna.
A Constituição estabelece que o poder é exercido por representantes eleitos ou diretamente e que cada voto tem o mesmo valor. Também determina o voto obrigatório para os maiores de dezoito anos. O primeiro turno das eleições de 2026 ocorrerá em 4 de outubro de 2026. Antes da apuração, nenhum eleitor poderá afirmar que seu voto não fará diferença.


