O câncer colorretal avançou mais rapidamente entre adultos jovens do que entre pessoas mais velhas em cerca de um terço dos países analisados em uma pesquisa publicada em 2025. O estudo comparou registros de 42 países entre 2003 e 2017 e identificou crescimento, entre os mais jovens, também nos casos de câncer de tireoide, mama, rim, útero e leucemia.
A comparação foi feita entre pessoas de 20 a 49 anos e adultos com 50 anos ou mais. Com exceção do câncer colorretal, os outros cinco tipos também aumentaram entre os grupos mais velhos. Para Amy Berrington de Gonzalez, professora de epidemiologia clínica do Instituto de Pesquisa do Câncer, em Londres, o tumor colorretal se diferencia por avançar entre jovens enquanto recua entre os mais velhos.
O que mostram os registros
O Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer analisou dados da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Holanda. Na Inglaterra, a proporção de pessoas com menos de 50 anos diagnosticadas com câncer colorretal passou de cerca de uma em cada 26 mil, em 2001, para aproximadamente uma em cada 12 mil, em 2023. A taxa foi duas vezes maior que a registrada duas décadas antes.
A entidade também verificou aumento no número de novos casos de sete tipos de câncer na Inglaterra. Ainda não é possível determinar quanto desse avanço corresponde a um crescimento real da doença e quanto resulta da identificação de tumores em fases iniciais, favorecida pela maior conscientização, pelo diagnóstico precoce e pelo tratamento hospitalar.
Um estudo americano sobre câncer de pâncreas em pessoas de 15 a 39 anos encontrou crescimento quase exclusivo dos tumores detectados no início. As taxas de mortalidade não se alteraram, o que indica que a elevação pode estar ligada principalmente à ampliação dos diagnósticos. No câncer colorretal, porém, pesquisas dos Estados Unidos apontaram aumento também nos estágios avançados.
América Latina e fatores de risco
Outra análise, publicada em 2025, reuniu dados de registros de 50 países e territórios até 2017. Houve aumento do câncer colorretal de início precoce em 27 regiões. Na América Latina, as taxas cresceram no Chile, na Argentina, no Equador, na Costa Rica e em Porto Rico. No Chile, a alta foi de quase 4% ao ano.
O Instituto Nacional do Câncer estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Entre os tipos destacados estão o câncer do colo do útero e o colorretal, que têm potencial de prevenção e detecção precoce.
Marc Gunter, professor de epidemiologia do câncer no Imperial College London, relaciona o avanço a mudanças na alimentação e no estilo de vida na América Latina, com maior presença de alimentos ultraprocessados e mais sedentarismo. A obesidade é reconhecida como causa de pelo menos 13 tipos de câncer pela Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, da Organização Mundial da Saúde. Uma revisão publicada em 2021 indicou que adultos jovens com obesidade tinham quase o dobro de probabilidade de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos.
As taxas de obesidade dobraram entre adultos desde os anos 1990 e quadruplicaram entre adolescentes, segundo a Organização Mundial da Saúde. Carnes processadas são classificadas como cancerígenas, enquanto uma alimentação rica em fibras reduz o risco. As evidências sobre alimentos ultraprocessados e microplásticos, porém, ainda são inconclusivas.
Prevenção e limites das evidências
Gunter afirma que os jovens podem reduzir o risco mantendo um peso saudável, praticando atividade física, consumindo mais fibras e diminuindo a ingestão de carnes processadas. Ele também defende políticas públicas de saúde e diz que as pessoas não devem ser responsabilizadas individualmente por viverem em sociedades organizadas em torno de alimentos práticos e trabalho sedentário.
Apesar do crescimento observado, o câncer continua incomum entre os jovens. Berrington de Gonzalez resume: "Três vezes um número pequeno continua sendo um número pequeno."


