A deficiência de ferro pode ser identificada antes do surgimento da anemia por meio do exame de ferritina, que mede as reservas do mineral no organismo. A fadiga é um dos sinais mais comuns, mas queda de cabelo, dores de cabeça, falta de ar, tontura, alterações nas unhas e inflamação da língua também podem aparecer.
A aparência cansada, pálida e com olheiras chamada nas redes sociais de “rosto de ferritina baixa” não permite concluir que exista deficiência. Os sintomas são inespecíficos e podem estar relacionados a outras condições. Nate Wood, especialista em clínica médica e diretor de medicina culinária da Faculdade de Medicina de Yale, resume a dificuldade: “Também poderia ser um milhão de outras coisas”.
O que os exames mostram
O ferro participa da produção de hemoglobina, proteína dos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. A ferritina armazena o mineral. Já a medição da hemoglobina pode não detectar a deficiência em seus estágios iniciais, porque a queda costuma aparecer quando as reservas de ferro já estão muito reduzidas, afirma Angela Weyand, hematologista pediátrica da Universidade de Michigan.
Níveis de ferritina inferiores a 30 nanogramas por mililitro caracterizam deficiência de ferro. Muitos médicos defendem o limite de 50 nanogramas por mililitro, especialmente para mulheres ou pessoas com sintomas. A Sociedade Americana de Hematologia propôs uma minuta de diretrizes com esse parâmetro para pessoas que apresentam sintomas ou fatores de risco, como sangramento menstrual intenso ou gravidez. A expectativa é que as recomendações sejam publicadas ainda neste mês.
A deficiência pode resultar de perda de sangue, ingestão insuficiente, dificuldade de absorção, gravidez, diálise ou outros fatores. O sangramento menstrual é uma fonte de perda de ferro para algumas mulheres, segundo Soumya Rangarajan, geriatra em Ann Arbor, Michigan.
Doenças e medicamentos também podem interferir
Cirurgias bariátrica ou gástrica podem comprometer a absorção do mineral ao alterar a parte do intestino onde esse processo ocorre. Infecção por H. pylori, uso prolongado de alguns medicamentos contra refluxo ácido, doença inflamatória intestinal e doença celíaca também estão entre as possíveis causas.
Imo Akpan, hematologista e professora associada de medicina no Centro Médico Irving da Universidade Columbia, afirma que a inflamação crônica associada a doenças autoimunes, doença renal, insuficiência cardíaca ou câncer eleva a hepcidina, hormônio que bloqueia a absorção intestinal do ferro. Em alguns casos, isso pode evoluir para anemia da inflamação crônica.
Por causa da variedade de causas, a investigação deve considerar um painel completo de exames de ferro, e não apenas um teste isolado de ferritina. Quando sangramento e ingestão insuficiente são descartados, os médicos podem avaliar doença celíaca, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, infecção por H. pylori, cirurgias anteriores e medicamentos que reduzem a acidez, como o omeprazol.
Suplementação exige orientação
O tratamento depende da intensidade da deficiência e de sua causa. O ferro pode ser administrado por via oral ou intravenosa. Comprimidos são usados com frequência, mas podem provocar efeitos colaterais gastrointestinais, diz Weyand. Em geral, os médicos prescrevem doses de 65 a 100 miligramas em dias alternados. Se os níveis não melhorarem após três meses, podem ser consideradas infusões de ferro, afirma Toby Richards, professor de cirurgia da Universidade de East London e responsável pela Iron Clinic.
A reposição não substitui a investigação da causa. Quando há sangramento, má absorção, maior necessidade de ferro ou outra condição, é necessário tratar também o problema responsável pela deficiência.
Não é recomendável tomar suplemento apenas por causa de fadiga. O excesso de ferro pode provocar cansaço e, em pessoas com hemocromatose, causar danos ao fígado, ao coração e ao pâncreas ao longo do tempo.
Carnes e frutos do mar fornecem ferro heme, absorvido com mais facilidade. Feijão, verduras de folhas verdes e grãos fortificados também contêm o mineral. A absorção das fontes vegetais melhora quando elas são combinadas com vitamina C, presente em frutas cítricas, frutas vermelhas, pimentões e tomates. Vegetarianos precisam de quase o dobro de ferro por dia em comparação com pessoas que comem carne. Chá, café e laticínios podem dificultar a absorção e devem ser evitados por cerca de duas horas antes e depois de alimentos ricos em ferro.


