O Banco Central reduziu a Selic para 13,75% na última quarta-feira (16), enquanto o Federal Reserve elevou os juros dos Estados Unidos para a faixa entre 3,75% e 4%. A mudança diminuiu a diferença de juros entre os dois países, mas analistas avaliam que o Brasil continua atraente para investidores estrangeiros.
A redução do diferencial tende a tornar os Treasuries, títulos soberanos americanos, mais competitivos diante dos ativos de mercados emergentes. Também pode favorecer o dólar em relação a moedas como o real e reduzir o incentivo ao carry trade, estratégia de tomar recursos em países com juros menores e aplicá-los em economias com taxas mais altas.
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, afirmou que a distância entre as taxas ainda é suficiente para manter o interesse pelo Brasil. Para ele, a combinação de cortes no país e alta dos juros americanos reduz o estímulo aos investimentos locais, mas não interrompe necessariamente o fluxo.
Petróleo e rotação global
A alta do petróleo é um dos fatores que, na avaliação dos analistas, compensam parte do efeito da redução do diferencial. Os preços subiram para níveis acima de US$ 100 (R$ 515) em meio à escalada do conflito envolvendo o Irã e outros países do Oriente Médio. Como o Brasil é exportador de petróleo, o movimento favorece empresas do setor e amplia a arrecadação, segundo Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP.
Rachel também citou o isolamento geopolítico brasileiro em relação aos conflitos globais e o fluxo de investimentos estrangeiros em data centers. Em maio, a Ascenty anunciou investimento de R$ 30 bilhões no interior de São Paulo.
Outro elemento é a perda de força do chamado trade de inteligência artificial, movimento de concentração de recursos em empresas de tecnologia. Com menos novidades após a temporada de balanços nos Estados Unidos, a rotação global pode beneficiar ativos brasileiros, segundo a estrategista.
As projeções ainda apontam para novas mudanças nos juros. A ferramenta FedWatch, do CME Group, indicava na manhã deste domingo (20) uma probabilidade de 57% de alta do Fed para a faixa entre 4% e 4,25% na reunião de outubro. No Brasil, as Opções de Copom, da B3, mostravam que 57% das posições apontavam para uma Selic de 13,5% em novembro.
Para 2027, a ferramenta do CME Group precifica a possibilidade de a taxa americana chegar a 4,5%, enquanto o Boletim Focus aponta Selic de 12% no Brasil. O mesmo boletim, em sua edição mais recente, divulgada no último dia 14, estima crescimento de 1,45% para o PIB em 2027, ante 1,89% no fim de 2026.
Álvaro Frasson, estrategista macro do BTG Pactual Portfolio Solutions, afirmou que a desaceleração da economia brasileira pode abrir espaço para juros menores. Ele também destacou as incertezas sobre o petróleo, a política do Fed, o câmbio e a política fiscal nos próximos anos.
Renda fixa segue no foco
A Selic em 13,75% mantém a atratividade da renda fixa brasileira, sobretudo dos investimentos pós-fixados. Nos Estados Unidos, o rendimento do Treasury de dois anos chegou a 4,745% no pico da semana, maior nível desde 2024, diante da expectativa de juros americanos mais altos.
A alta dos rendimentos reduz os preços dos títulos, que se movimentam em direção oposta às taxas. No Brasil, a expectativa de continuidade dos cortes aumentou o interesse por papéis prefixados, que permitem fixar uma taxa antes de uma eventual queda dos juros.
Rachel disse que a XP aumentou a exposição a essa classe no início de setembro, diante da perspectiva de redução das taxas e da avaliação de que os papéis oferecem prêmio. Frasson, por sua vez, considera os pós-fixados uma alternativa diante das incertezas externas e internas, incluindo as eleições em outubro.

