A taxa Selic deve cair pela quinta vez consecutiva nesta quarta-feira (16), para 13,75% ao ano, mesmo com a perspectiva de alta dos juros nos principais bancos centrais do mundo. A decisão será tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na última reunião antes das eleições.
A avaliação predominante entre os economistas é que o cenário doméstico permite ao Banco Central manter a flexibilização. Desde o encontro de agosto, ganharam força as leituras de desaceleração da atividade econômica e de avanço da desinflação.
Inflação e atividade doméstica
O IPCA acumulado em 12 meses até agosto desacelerou para 4,22%. O resultado foi influenciado pela queda da conta de luz, sob efeito temporário do bônus de Itaipu. A taxa de câmbio também é considerada relativamente estável, com o dólar na casa de R$ 5,15.
Henrique Danyi, economista do Santander, afirma que o Banco Central chega a esta decisão em uma posição diferente da de outras autoridades monetárias porque manteve os juros em nível restritivo por mais tempo. Para ele, os dados recentes dão suporte à continuidade dos cortes, embora as expectativas de inflação permaneçam acima da meta no médio e no longo prazos.
As projeções do boletim Focus para o IPCA são de 4,3% em 2027 e 3,8% em 2028. O Banco Central considera o primeiro trimestre de 2028 como horizonte para os efeitos defasados da política monetária sobre a economia.
Danyi defende uma condução dependente dos dados, sem compromissos prévios sobre o fim do ciclo. “Está ficando cada vez mais incerto se essa é a última reunião [de cortes] ou não”, afirma. Entre os fatores que podem alterar a trajetória estão o mercado de crédito, o mercado de trabalho e os possíveis impactos do Super El Niño.
Andrea Damico, economista-chefe e CEO da consultoria Buysidebrazil, projeta um corte de 0,25 ponto percentual nesta reunião, mas considera possível que a redução continue em novembro. Ela cita a perda de ritmo da atividade e a descompressão da inflação subjacente como fatores favoráveis à continuidade do ciclo.
No segundo trimestre, o PIB cresceu 0,5% na comparação com os três meses anteriores. O consumo das famílias, porém, recuou 0,4% no período. A taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre até julho, o menor nível para esse intervalo na série histórica iniciada em 2012, segundo dados do IBGE.
Pressão externa
O ambiente internacional aponta para uma direção distinta. A intensificação da guerra no Oriente Médio elevou a incerteza sobre a inflação global, enquanto as cotações do petróleo voltaram a superar US$ 100.
O Fed deve elevar nesta quarta-feira (16) os juros dos Estados Unidos para o intervalo de 3,75% a 4%. Atualmente, a taxa está entre 3,5% e 3,75%. Também aumentaram as apostas de que o Banco do Japão elevará sua taxa de referência de 1% para 1,25%. Na semana passada, o Banco Central Europeu aumentou a taxa de depósito em 0,25 ponto percentual, para 2,5% ao ano.
Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central, considera que o Copom está baseando sua atuação na avaliação de que os juros atuais podem provocar uma contração muito forte da economia. Para ele, essa leitura é equivocada e o colegiado não deveria continuar reduzindo a Selic se quisesse garantir a convergência da inflação à meta, cujo centro é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Apesar da crítica, Kanczuk considera certa a queda nesta quarta-feira. O próximo encontro do Copom está marcado para os dias 3 e 4 de novembro, depois do resultado do pleito. Na avaliação dele, a taxa pode continuar recuando até o ano que vem, sem interrupções, mas uma nova crise fiscal, dependendo das eleições, poderia interromper o ciclo.
“Está ficando cada vez mais incerto se essa é a última reunião [de cortes] ou não”, diz Danyi, ao destacar que a decisão sobre os próximos passos dependerá da evolução dos indicadores.


